Há uma cena simples e profunda no filme Dança Comigo? que passa quase despercebida em meio à leveza da dança.
A esposa, interpretada por Susan Sarandon, desconfiada de
que o marido (Richard Gere) possa estar traindo-a, contrata um detetive. A
esposa e o detetive se encontram num bar. Não há lágrimas dramáticas, apenas
cansaço e lucidez. Ela não fala sobre traição. Ela fala sobre solidão. Diz que existem
bilhões de pessoas no mundo e que, sozinha, uma vida parece pequena demais.
Quase invisível. Mas que, quando duas pessoas se comprometem, é como se
dissessem uma à outra: “Eu vou prestar atenção em você. Eu vou te notar. Sua
vida não vai passar despercebida, porque eu estou aqui para vê-la.”
Não é posse. Não é controle. É testemunho. Essa fala tocou
algo muito profundo em mim, pois fala de um olhar que nos faz existir. Desde o
início da vida, aprendemos quem somos no olhar de alguém. O bebê descobre que é
real quando alguém o segura, o chama pelo nome, responde ao seu choro. Sem esse
olhar, o mundo vira vazio. A alma se sente transparente. Precisamos ser vistos.
Não vistos como desempenho ou aparência, mas vistos como presença: “eu
reconheço você, eu me importo com sua história.” No fundo, todo afeto humano
carrega essa pergunta silenciosa: “Você me enxerga?”
O Evangelho é o olhar de Deus. O Evangelho nos diz que
ninguém vive sem testemunha. Antes mesmo de qualquer relação humana, existe um
Deus que vê. Um Deus que conta os fios de cabelo, que chama pelo nome, que
percebe a lágrima secreta. Um Deus que, em Jesus, para diante de pessoas
invisíveis e diz: “Eu te vi.” Foi assim com Zaqueu na árvore; com a mulher
junto ao poço; com o cego à beira do caminho.
O milagre começa quando alguém é notado. É como se Deus
dissesse continuamente: “Sua vida não é acidental. Eu estou te olhando. Você
importa.”
A cena do filme fala de casamento, mas a verdade é maior do
que isso. Toda amizade profunda, todo gesto de cuidado, toda escuta paciente
repete o mesmo sacramento cotidiano: quando você se senta ao lado de alguém em
sofrimento, quando pergunta “como você está?” e realmente espera a resposta,
quando guarda a memória da história de alguém — você se torna testemunha
daquela vida.
E isso é amor. É assim que a Igreja precisa ser: uma
comunidade que vê, acolhe e ama a todos, sem distinção.
Amar é dizer: “Você não vai atravessar o mundo sozinho.” “Eu
vejo você.” “Eu fico.” Talvez seja isso que nos salve da invisibilidade:
sermos, uns para os outros, pequenos reflexos do olhar fiel de Deus. Porque, no
fim, existir é isso: ter alguém que testemunhe que passamos por aqui.
30 de janeiro de 2026

