"Somos seres desejantes, destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar" — Jacques Lacan

Quando aceitamos nossas limitações e deixamos de encará-las como um problema emocional, pacificamos nossa relação conosco mesmos.
Nosso grande erro é tentar tapar essa falta interior, esse buraco estrutural na alma, com a presença de outra pessoa.
Essa solidão nos constitui; nenhum par romântico pode eliminá-la.
Não existe alma gêmea.
Não existe tampa da panela.
Relacionamentos saudáveis são construções diárias entre duas pessoas inteiramente cientes de suas próprias falhas.
Fomos ensinados pela cultura — músicas, filmes, novelas — a crer que o amor é uma mágica que anula o vazio.
Ilusão.
Passamos a vida correndo para saciar desejos, buscando fora o que nos falta por dentro. Para amadurecer, precisamos acolher nossa própria falta.
No entanto, aceitar a incompletude não significa caminhar em isolamento absoluto ou bastar-se a si mesmo.
Na psicanálise, o sujeito só se constitui através do Outro. É nesse horizonte que a nossa fala nasce, o nosso desejo ganha nome e a nossa existência se torna possível. O Outro não é uma dependência neurótica nem uma necessidade de amparo, mas o lugar sagrado da alteridade.
Há, de fato, uma dimensão de transcendência nesse vazio que carregamos. Mas essa força sutil, esse Absoluto que nos habita, não serve para anular o mundo ou nos isolar em uma autossuficiência divina.
Pelo contrário: a verdadeira transcendência analítica é aquela que nos empurra para fora de nós mesmos. Ela se manifesta justamente no mistério do encontro.
Não buscamos o Outro para preencher o buraco da alma, mas porque é na fenda da nossa própria incompletude que o amor se torna um ato de fé no semelhante.
O Outro importa porque ele é o espelho do inacessível. Amar é o gesto transcendente de suportar o próprio vazio para dar espaço ao mistério de quem o outro é.
Lia Silva - julho de 2022 - revisado em 14/07/2026