Vivemos em uma cultura que valoriza a força, a autonomia e o desempenho. Espera-se que as pessoas estejam sempre bem, produtivas e emocionalmente resolvidas. Nesse cenário, a vulnerabilidade costuma ser interpretada como fraqueza ou falha moral. O Evangelho, porém, oferece uma inversão profunda dessa lógica: nele, a fragilidade não é obstáculo à experiência de Deus, mas lugar privilegiado de encontro.
Jesus
inicia o Sermão da Montanha com uma afirmação desconcertante: “Bem-aventurados
os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:3). Longe de
glorificar a miséria, essa bem-aventurança aponta para uma atitude interior de
abertura. Os pobres em espírito são aqueles que reconhecem seus limites e não
se apoiam na ilusão da autossuficiência.
Paul
Tillich observa que a fé nasce justamente quando o ser humano se confronta com
sua finitude e, ainda assim, encontra coragem para existir. O Reino, portanto, não é conquista dos fortes, mas dom oferecido aos
que reconhecem sua própria falta.
Os
Evangelhos apresentam um Jesus profundamente humano. Ele chora a morte de
Lázaro (Jo 11:35), sente compaixão das multidões cansadas e expressa angústia
diante da morte. No Getsêmani, sua oração revela medo e desejo de escapar do
sofrimento: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Lc 22:42).
Essa cena
é teologicamente decisiva. Jesus não nega sua vulnerabilidade para obedecer a
Deus; ele a expressa. Jürgen Moltmann interpreta a cruz como revelação de um
Deus que sofre com a humanidade e se solidariza com a dor do mundo. A
vulnerabilidade, assim, não é apenas humana, mas também teológica.
A leitura
minuciosa dos Evangelhos mostra que a cruz não deve ser lida como glorificação
do sofrimento. Ela denuncia sistemas religiosos, políticos e sociais que
produzem morte e exclusão. O grito de Jesus — “Meu Deus, por que me
abandonaste?” ) — não indica ausência de fé, mas expressa o desamparo vivido
por tantos corpos vulneráveis ao longo da história.
Dorothee
Sölle lê esse clamor como protesto e solidariedade com os que sofrem. Deus não
deseja a cruz, mas está presente onde a vida é violentada.
A
psicanálise oferece importantes chaves de leitura para esse tema. Freud e Lacan
afirmam que o sujeito humano é constituído pela falta; não há completude
possível. Grande parte do sofrimento psíquico nasce da tentativa de negar essa
condição. Donald Winnicott acrescenta que o amadurecimento emocional só é
possível em um “ambiente suficientemente bom”, onde a fragilidade possa ser
acolhida. Quando não há espaço para a vulnerabilidade, o sujeito constrói
defesas rígidas, afastando-se de si mesmo. O Evangelho, ao reunir pessoas
feridas em torno da mesa, antecipa essa intuição: a cura passa pela relação,
não pela perfeição.
O Cristo
ressuscitado não retorna com um corpo idealizado. Ele conserva as marcas da
cruz e as mostra aos discípulos. A ressurreição não apaga a história; ela a
transforma. Também na psicanálise, elaborar o sofrimento não significa
esquecê-lo, mas integrá-lo de modo menos destrutivo. As feridas permanecem, mas
deixam de definir totalmente a existência.
Se a
vulnerabilidade também é lugar de vida, a comunidade espiritual deveria ser
espaço seguro para a fragilidade humana. Uma religião que exige força constante
e certezas absolutas acaba reproduzindo a lógica excludente que o Evangelho
questiona.
Jesus
nunca chamou pessoas prontas. Ele chamou pessoas reais. A fé, à luz do
Evangelho, não se mede pela ausência de dor ou dúvida, mas pela capacidade de
permanecer em relação — com Deus, com o outro e consigo mesmo — mesmo quando a
falta se impõe.
Assumir a vulnerabilidade não é sinal de fracasso, mas gesto de honestidade existencial. É reconhecer que a força que sustenta a vida não nasce do controle, mas da relação. Como escreve o apóstolo Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12:10). Não porque a fraqueza seja idealizada, mas porque nela se abre espaço para a graça, o cuidado e a comunhão.
02 de fevereiro de 2026
Referências
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida – Revista e
Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
TILLICH, Paul. A coragem de ser. São Paulo: Paz e
Terra, 1976.
MOLTMANN, Jürgen. O Deus Crucificado. Santo André:
Academia Cristã, 2011.
SÖLLE, Dorothee. O sofrimento. Petrópolis: Vozes, 1979.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: ______. Obras
completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia
das Letras, 2014.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

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