Deus não nos poupa do caminho, mas nos salva da solidão absoluta de percorrê-lo.
O teólogo Dietrich Bonhoeffer escreveu certa vez uma frase que confronta nossa necessidade infantil de controle: "Deus está conosco não resolvendo os problemas, mas suportando-os conosco".
É uma afirmação dura para uma cultura que busca alívio imediato e soluções
mágicas. No entanto, ela guarda uma simetria perfeita com um dos textos mais
conhecidos da história humana.
“... Não temerei porque... Tu estás comigo.”
Perceba que o salmista não celebra o sumiço dos problemas. Ele não diz que o vale da sombra da morte foi cancelado, que os inimigos desapareceram ou que a dor foi magicamente evaporada.
O que
anula o medo não é a ausência do perigo. É a presença do Vínculo.
Na psicanálise, o pediatra e analista Donald Winnicott introduziu o conceito de holding — que significa sustentação ou colo. Quando um bebê entra em angústia por uma cólica ou pelo próprio estranhamento com o mundo, a mãe muitas vezes não consegue arrancar a dor dele instantaneamente.
O que ela faz? Ela o segura firme. O colo comunica à psique
da criança que aquela dor, por mais assustadora que pareça, é suportável porque
não é vivida na solidão.
O que Bonhoeffer e o Salmista descrevem é uma
espécie de "Holding Divino".
Crescer emocional e espiritualmente exige abandonar a ilusão de um Deus estilo "Papai Noel", que usamos como amuleto para saltar as frentes frias da vida.
O amadurecimento acontece quando entendemos
que o maior pavor humano não é o obstáculo em si, mas o desamparo absoluto
diante dele.
Caminhar pelo vale continua exigindo o esforço das
nossas próprias pernas. A dor ainda dói. Mas o paradoxo da fé — e da saúde
mental — se estabelece no silêncio da travessia: saber que há um Outro
confiável testemunhando e sustentando a nossa existência na retaguarda.
Não estamos imunes aos problemas do mundo. Mas
estamos, definitivamente, acompanhados.
Lia Silva
Escritora e Psicanalista
17/09/2025




