quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O que o Salmo 23 e a Psicanálise nos ensinam sobre a dor

Deus não nos poupa do caminho, mas nos salva da solidão absoluta de percorrê-lo.

O teólogo Dietrich Bonhoeffer escreveu certa vez uma frase que confronta nossa necessidade infantil de controle: "Deus está conosco não resolvendo os problemas, mas suportando-os conosco"

É uma afirmação dura para uma cultura que busca alívio imediato e soluções mágicas. No entanto, ela guarda uma simetria perfeita com um dos textos mais conhecidos da história humana.

Lembra do Salmo 23:4?
“... Não temerei porque... Tu estás comigo.”

Perceba que o salmista não celebra o sumiço dos problemas. Ele não diz que o vale da sombra da morte foi cancelado, que os inimigos desapareceram ou que a dor foi magicamente evaporada. 

O que anula o medo não é a ausência do perigo. É a presença do Vínculo.

Na psicanálise, o pediatra e analista Donald Winnicott introduziu o conceito de holding — que significa sustentação ou colo. Quando um bebê entra em angústia por uma cólica ou pelo próprio estranhamento com o mundo, a mãe muitas vezes não consegue arrancar a dor dele instantaneamente. 

O que ela faz? Ela o segura firme. O colo comunica à psique da criança que aquela dor, por mais assustadora que pareça, é suportável porque não é vivida na solidão.

O que Bonhoeffer e o Salmista descrevem é uma espécie de "Holding Divino".

Crescer emocional e espiritualmente exige abandonar a ilusão de um Deus estilo "Papai Noel", que usamos como amuleto para saltar as frentes frias da vida. 

O amadurecimento acontece quando entendemos que o maior pavor humano não é o obstáculo em si, mas o desamparo absoluto diante dele.

Caminhar pelo vale continua exigindo o esforço das nossas próprias pernas. A dor ainda dói. Mas o paradoxo da fé — e da saúde mental — se estabelece no silêncio da travessia: saber que há um Outro confiável testemunhando e sustentando a nossa existência na retaguarda.

Não estamos imunes aos problemas do mundo. Mas estamos, definitivamente, acompanhados.


Lia Silva 
Escritora e Psicanalista 

17/09/2025

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Sagrado na rotina: o que a Psicanálise nos ensina sobre espiritualidade e o vazio cotidiano

Existe um hábito silencioso em nossa cultura de vincular a espiritualidade a horários e lugares marcados. Acreditamos que a conexão com o transcendente só acontece quando abrimos um livro sagrado ou quando exercemos determinadas atividades dentro de um templo ou num lugar considerado sagrado.
Criamos, sem perceber, uma linha divisível e cruel na mente: de um lado fica o Sagrado, o puro e o intocável; do outro, o trânsito barulhento, a louça acumulada na pia, as cobranças do trabalho e os boletos que vencem no fim do mês.

Na psicanálise, essa separação drástica reflete um mecanismo de defesa clássico: a cisão. Quando a psique encontra dificuldades para lidar com as frustrações da realidade real, ela divide o mundo em dois polos opostos.
De um lado, projeta uma espiritualidade idealizada e flutuante; do outro, enxerga o cotidiano como algo desprovido de valor. O preço dessa fragmentação é uma sensação crônica de vazio e cansaço. Ao insistirmos que Deus ou a paz só habitam o extraordinário, transformamos os nossos dias em um fardo cinzento e estéril.

Essa busca por uma conexão desconectada da matéria gera a armadilha da cobrança por uma santidade performática. Passamos a exigir de nós mesmos rituais complexos para alcançar uma validação interna.
A teoria analítica nos mostra que essa busca por cenários intocáveis é o aprisionamento em um Ideal do Ego neurotizante — um juiz interno implacável que rejeita a nossa própria humanidade.
A espiritualidade madura precisa ser, antes de tudo, pé no chão. Ela entende que a paz interior não depende de uma ausência de problemas materiais, mas de aprender a integrar as nossas faltas e contradições.

A verdadeira saúde mental e espiritual caminha no sentido de integrar o self, unindo o céu e a terra dentro de nós. Uma espiritualidade encarnada não foge da realidade concreta; ela mergulha nela. O amadurecimento interior acontece quando desarmamos as defesas que nos isolam na abstração e percebemos que o trabalho honesto, a conversa despretensiosa com um amigo, o cuidado com os filhos e até mesmo o acolhimento do nosso próprio cansaço são os verdadeiros altares onde a empatia e o afeto florescem espontaneamente.

Trazer essa percepção para a prática não exige rituais complexos, mas uma mudança na qualidade da nossa atenção. O convite é para um exercício simples de presença consciente: na próxima vez em que você se pegar imerso em uma tarefa perfeitamente comum — seja lavando a louça, esperando o sinal abrir no trânsito ou tomando o primeiro gole de café pela manhã —, faça uma pausa mental de trinta segundos. 

Em vez de deixar o pensamento fugir para uma idealização distante, sinta o peso do seu corpo no chão, respire fundo e observe o que está acontecendo exatamente agora.

Pergunte-se silenciosamente: “De que forma o Sagrado opera nesta tarefa tão comum?” ou “Onde está a beleza sutil deste instante que eu estava ignorando? ou ainda, “Como posso manifestar afeto e paciência neste exato segundo?”.

Desarmar o piloto automático por alguns instantes ajuda a romper a cisão da mente, permitindo-nos resgatar o sentido do Sagrado que já habita o chão da nossa realidade concreta.

Lia Silva 
Escritora e Psicanalista 

16/09/2025

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tricotando memórias, desmanchando excessos e reaprendendo a ter paciência comigo mesma

Depois de décadas de afastamento, este ano eu voltei a tricotar.

Aprendi o ofício com a minha avó, durante as tardes geladas do inverno gaúcho que passávamos juntas ao redor do fogão a lenha. À época, eu ainda era uma criança e a atividade não passava de um desafio divertido. Lembro-me perfeitamente de vê-la contando os pontos na agulha de dois em dois, enquanto eu me perguntava: "como ela consegue contar pulando os números?". Sem que eu percebesse, ela também ensinava matemática à sua neta mais velha.
Há alguns meses, meu pensamento parecia fixado nela. Sonhei muitas noites seguidas com a sua presença. Movida pela saudade, resolvi testar minha memória e resgatar o nosso tricotar. Para a minha surpresa, descobri que minhas mãos ainda lembravam dos movimentos que ela me ensinou. O que começou como uma forma de acolher a nostalgia virou um hobby e, logo em seguida, um espelho para a vida.
Em uma sessão de terapia, comentei com a minha analista sobre a alegria recém-descoberta. Expliquei que ainda estava reaprendendo o ritmo: alguns pontos ficavam muito apertados, outros muito soltos, correndo o risco de comprometer o resultado final. Foi a partir dessa fala que um profundo processo de autoconhecimento começou.
Minha analista me fez perceber o quanto o ato de tricotar estava conectado com o meu momento atual, com as minhas tentativas de lidar com as dores, com os traumas, com a minha rigidez e com os meus "não-sei" — aceitando que está tudo bem não saber tudo. Reaprender a tricotar transformou-se em aprender a lidar comigo mesma. Tecer uma peça tornou-se o equivalente a acolher a minha própria história.
A foto que acompanha este texto mostra minhas tentativas de confeccionar uma meia — justamente a peça que a minha avó fazia para presentear os netos. Olhando para ela, vejo um rastro de tentativas e erros até chegar a um modelo final mais próximo da realidade. Da primeira tentativa ao modelo final, cada meia carrega um erro, um acerto e muita coragem.
Precisei recomeçar do zero inúmeras vezes. Todo o trabalho de construção que não ficava bom era desfeito. Enfrentei o desafio de acertar a quantidade ideal de pontos, a escolha do desenho, a combinação das cores e o improviso quando o fio acabava sem um novelo igual para repor. Vivenciei o ponto apertado, o ponto frouxo e o ponto que escapou da agulha e sumiu, o que me obrigou a reiniciar o trabalho.
Por enquanto, o resultado final ainda não está
perfeito aos meus olhos. Sei que posso evoluir, mas já aceito que nunca alcançarei a perfeição, simplesmente porque ela não existe. O que existe é o que posso fazer hoje, o que dou conta de entregar e o que posso aprender para o amanhã.
No fim das contas, minha avó não me ensinou apenas a cruzar fios de lã. Ela abriu caminhos para que eu tivesse uma compreensão muito maior de mim mesma e das escolhas que faço diariamente. Já não sinto frustração ao ter que recomeçar. Afinal, a vida de todo mundo é feita desses ciclos, embora nem todos consigam perceber.
João Guimarães Rosa foi preciso quando escreveu em Grande Sertão: Veredas: “O que a vida quer da gente é coragem!”
Enquanto tricoto a minha própria trajetória, vou reconhecendo as minhas coragens. É certo que vou errar em algumas fileiras, mas o verdadeiro valor reside na resiliência, na insistência e na capacidade de tentar de novo. Até que tenhamos vivido o melhor que podíamos com aquilo que a vida nos ofertou.

Lia Silva 
20 de julho de 2026.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Celebrar um gol em um mundo em guerra, é alienação ou sobrevivência psíquica?

 

A Copa do Mundo não é apenas sobre futebol; ela funciona como um espelho e um amortecedor para as angústias de um mundo fraturado por guerras e polarizações. Em momentos de dor coletiva, o esporte opera como uma das poucas ferramentas capazes de canalizar afetos violentos e devolver o direito à alegria para populações historicamente sofridas.

Enquanto que o mundo real – guerras, polarização e ódio – produz uma frustração sem destino, a Copa oferece uma forma de canalizar a agressividade, com catarse, ritual e sublimação.

Para compreender o fenômeno das massas durante a Copa do Mundo, a psicanálise oferece duas chaves de leitura essenciais:

  • Sublimação: Mecanismo que transforma pulsões destrutivas em atividades socialmente aceitas e produtivas.
  • Mal-estar na Civilização: A renúncia que o sujeito faz de seus instintos violentos para viver em sociedade, gerando uma frustração constante.

Sigmund Freud, em sua obra clássica O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a vida em sociedade exige o controle das nossas pulsões agressivas. O futebol funciona como uma arena ritualística onde essa agressividade reprimida pode ser descarregada de forma segura e simbólica.

"A substituição do poder do indivíduo pelo poder da comunidade é o passo decisivo da civilização." — Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização.

Christian Dunker, psicanalista brasileiro contemporâneo, discute exaustivamente as lógicas de condomínio e a polarização social. Ele explica como os grandes rituais coletivos ajudam a refazer laços em sociedades fragmentadas pelo ódio político.

Em um cenário global marcado por trincheiras ideológicas e conflitos armados, a Copa do Mundo altera temporariamente a dinâmica das fronteiras. Ela cria o que o antropólogo Victor Turner chamava de communitas: um estado de igualdade e comunhão que suspende temporariamente as hierarquias e divisões do dia a dia.

Isso quer dizer que o rival vira adversário: no campo de jogo, o "outro" deixa de ser um inimigo a ser aniquilado (lógica da guerra) e passa a ser um oponente a ser superado sob regras rígidas comuns (lógica do esporte).

Para quem enfrenta a dureza da fome, do desemprego ou do medo da violência, a celebração de um gol não é alienação; é sobrevivência psíquica. A alegria coletiva reconecta o indivíduo à sua dignidade e ao sentimento de pertencimento.

Há algumas referências artísticas que traduzem o poder do futebol no imaginário popular.

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade compreendia o futebol como uma crônica da própria vida. No poema O Torcedor, ele ilustra essa suspensão da realidade:

"O torcedor esquece a própria dor e projeta-se na dor e na glória do seu clube. Ali ele é gigante, ali ele é feliz."

A música de Gonzaguinha - O Que É, O Que É? – é perfeita para ilustrar a resiliência de um povo sofrido que escolhe celebrar.

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

E a vida o que é, meu irmão?

...É a batida de um coração

É a doce ilusão."

Chico Buarque também escreveu ‘O Futebol’ para mostrar a beleza estética e o alívio que o jogo traz.

"Para essa pelada que joga a lenda

Se essa bola é pele, se essa bola é prenda

Se essa bola é vida."

Lia Silva - junho de 2026



FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

DUNKER, Christian. A Reinvenção do Espaço Público: Política e Psicanálise no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2022.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2002.

TURNER, Victor. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974 (Conceito de Communitas).

quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Ver a vida acontecer como um dia de domingo"

Há uma canção linda, imortalizada na voz inesquecível de Gal Costa, que enaltece o domingo. O trecho da canção diz assim: “ver a vida acontecer como um dia de domingo".

Que significado oculto há por trás dessa fantasia do dia de domingo? Fica claro que o domingo vai muito além de uma simples folha no calendário ou de um descanso na rotina.

Para a psicanálise, o domingo funciona como uma verdadeira fresta temporal por onde o nosso inconsciente consegue escapar. Durante a semana, nossa mente é governada pelo que Freud chamou de "Princípio da Realidade", um estado em que somos esmagados pela produtividade, pelos horários rígidos e pelas exigências sociais.

Quando o domingo chega, essa lógica da utilidade é finalmente suspensa, abrindo espaço para o "Princípio do Prazer", onde o tempo cronológico perde o poder absoluto e o desejo puro pode finalmente falar mais alto.

É por essa razão que a canção repete, de forma quase hipnótica e obsessiva, a frase "faz de conta que ainda é cedo". Esse verso funciona como um clássico mecanismo de negação inconsciente, uma recusa saudável do tempo linear que tenta afastar a iminência da segunda-feira e o retorno inevitável das obrigações do mundo real.

O inconsciente, afinal, é atemporal; ele não reconhece o relógio e deseja apenas a eternidade daquele instante de satisfação. Sob essa atmosfera de suspensão, a busca descrita na letra por "respirar o mesmo ar" e "ter na pele o mesmo sol" reflete uma profunda fantasia de simbiose amorosa, um desejo psíquico de fusão total com o outro que remete ao acolhimento e à plenitude da nossa infância mais primeva.

Essa quebra das amarras cotidianas explica por que o domingo é o dia mais poetizado da nossa cultura. Como a censura interna diminui e as defesas do ego relaxam, os sentimentos reprimidos ganham passagem livre para emergir.

A poesia e o inconsciente dividem a mesma matéria-prima — a metáfora e a linguagem dos afetos —, transformando o domingo no cenário perfeito para a vida "acontecer" de verdade, guiada pela emoção e pela voz do coração.

Mesmo a melancolia que costuma invadir o fim de tarde desse dia nada mais é do que a expressão da nossa falta constituinte, aquela saudade de uma totalidade impossível. Assim, escrever e cantar sobre o domingo torna-se uma forma de traduzir o invisível, criando uma narrativa poética indispensável para suportarmos o retorno à realidade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Paz que Escolhi

Houve um tempo — longo demais, confesso — em que eu gastava meus dias tentando construir pontes. 

Eu acreditava que, com as palavras certas e o tom exato, conseguiríamos chegar a um lugar comum, onde o entendimento fosse bom para ambos os lados.

Mas, pouco a pouco, percebi que minhas tentativas de compreensão eram engolidas pelo ruído. 

Onde eu buscava harmonia, o outro só buscava o ringue.

O amadurecimento me trouxe uma lucidez silenciosa: existem almas que se alimentam do conflito. 

São viciadas no embate pelo prazer do atrito, sem nenhuma intenção de aprender ou de encontrar o meio termo. Para essas pessoas, a vitória não é o consenso, é o desgaste alheio.

Foi então que desisti.

Não por cansaço, mas por escolha.

Sou feita de paz.

E hoje, não gasto um suspiro sequer com quem faz da discórdia o seu lar. 

Diante do vício de quem ama a briga, eu ofereço o meu silêncio e o meu distanciamento. 

Vivo melhor assim, sem batalhas inúteis para lutar.

No fim das contas, aprendi a lição mais preciosa de todas: eu prefiro ter paz do que ter razão.

Muitas vezes, a nossa paz depende de uma única palavra que deixamos de dizer. Você já sentiu a liberdade de desistir de uma discussão que não era sua?


Lia Silva 
Fev. 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Do filme Dança Comigo?

Há uma cena simples e profunda no filme Dança Comigo? que passa quase despercebida em meio à leveza da dança.

A esposa, interpretada por Susan Sarandon, desconfiada de que o marido (Richard Gere) possa estar traindo-a, contrata um detetive. A esposa e o detetive se encontram num bar. Não há lágrimas dramáticas, apenas cansaço e lucidez. Ela não fala sobre traição. Ela fala sobre solidão. Diz que existem bilhões de pessoas no mundo e que, sozinha, uma vida parece pequena demais. Quase invisível. Mas que, quando duas pessoas se comprometem, é como se dissessem uma à outra: “Eu vou prestar atenção em você. Eu vou te notar. Sua vida não vai passar despercebida, porque eu estou aqui para vê-la.”

Não é posse. Não é controle. É testemunho. Essa fala tocou algo muito profundo em mim, pois fala de um olhar que nos faz existir. Desde o início da vida, aprendemos quem somos no olhar de alguém. O bebê descobre que é real quando alguém o segura, o chama pelo nome, responde ao seu choro. Sem esse olhar, o mundo vira vazio. A alma se sente transparente. Precisamos ser vistos. Não vistos como desempenho ou aparência, mas vistos como presença: “eu reconheço você, eu me importo com sua história.” No fundo, todo afeto humano carrega essa pergunta silenciosa: “Você me enxerga?”

O Evangelho é o olhar de Deus. O Evangelho nos diz que ninguém vive sem testemunha. Antes mesmo de qualquer relação humana, existe um Deus que vê. Um Deus que conta os fios de cabelo, que chama pelo nome, que percebe a lágrima secreta. Um Deus que, em Jesus, para diante de pessoas invisíveis e diz: “Eu te vi.” Foi assim com Zaqueu na árvore; com a mulher junto ao poço; com o cego à beira do caminho.

O milagre começa quando alguém é notado. É como se Deus dissesse continuamente: “Sua vida não é acidental. Eu estou te olhando. Você importa.”

A cena do filme fala de casamento, mas a verdade é maior do que isso. Toda amizade profunda, todo gesto de cuidado, toda escuta paciente repete o mesmo sacramento cotidiano: quando você se senta ao lado de alguém em sofrimento, quando pergunta “como você está?” e realmente espera a resposta, quando guarda a memória da história de alguém — você se torna testemunha daquela vida.

E isso é amor. É assim que a Igreja precisa ser: uma comunidade que vê, acolhe e ama a todos, sem distinção.

Amar é dizer: “Você não vai atravessar o mundo sozinho.” “Eu vejo você.” “Eu fico.” Talvez seja isso que nos salve da invisibilidade: sermos, uns para os outros, pequenos reflexos do olhar fiel de Deus. Porque, no fim, existir é isso: ter alguém que testemunhe que passamos por aqui.


Lia Silva
30 de janeiro de 2026