terça-feira, 9 de junho de 2026

Celebrar um gol em um mundo em guerra, é alienação ou sobrevivência psíquica?

 

A Copa do Mundo não é apenas sobre futebol; ela funciona como um espelho e um amortecedor para as angústias de um mundo fraturado por guerras e polarizações. Em momentos de dor coletiva, o esporte opera como uma das poucas ferramentas capazes de canalizar afetos violentos e devolver o direito à alegria para populações historicamente sofridas.

Enquanto que o mundo real – guerras, polarização e ódio – produz uma frustração sem destino, a Copa oferece uma forma de canalizar a agressividade, com catarse, ritual e sublimação.

Para compreender o fenômeno das massas durante a Copa do Mundo, a psicanálise oferece duas chaves de leitura essenciais:

  • Sublimação: Mecanismo que transforma pulsões destrutivas em atividades socialmente aceitas e produtivas.
  • Mal-estar na Civilização: A renúncia que o sujeito faz de seus instintos violentos para viver em sociedade, gerando uma frustração constante.

Sigmund Freud, em sua obra clássica O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a vida em sociedade exige o controle das nossas pulsões agressivas. O futebol funciona como uma arena ritualística onde essa agressividade reprimida pode ser descarregada de forma segura e simbólica.

"A substituição do poder do indivíduo pelo poder da comunidade é o passo decisivo da civilização." — Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização.

Christian Dunker, psicanalista brasileiro contemporâneo, discute exaustivamente as lógicas de condomínio e a polarização social. Ele explica como os grandes rituais coletivos ajudam a refazer laços em sociedades fragmentadas pelo ódio político.

Em um cenário global marcado por trincheiras ideológicas e conflitos armados, a Copa do Mundo altera temporariamente a dinâmica das fronteiras. Ela cria o que o antropólogo Victor Turner chamava de communitas: um estado de igualdade e comunhão que suspende temporariamente as hierarquias e divisões do dia a dia.

Isso quer dizer que o rival vira adversário: no campo de jogo, o "outro" deixa de ser um inimigo a ser aniquilado (lógica da guerra) e passa a ser um oponente a ser superado sob regras rígidas comuns (lógica do esporte).

Para quem enfrenta a dureza da fome, do desemprego ou do medo da violência, a celebração de um gol não é alienação; é sobrevivência psíquica. A alegria coletiva reconecta o indivíduo à sua dignidade e ao sentimento de pertencimento.

Há algumas referências artísticas que traduzem o poder do futebol no imaginário popular.

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade compreendia o futebol como uma crônica da própria vida. No poema O Torcedor, ele ilustra essa suspensão da realidade:

"O torcedor esquece a própria dor e projeta-se na dor e na glória do seu clube. Ali ele é gigante, ali ele é feliz."

A música de Gonzaguinha - O Que É, O Que É? – é perfeita para ilustrar a resiliência de um povo sofrido que escolhe celebrar.

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

E a vida o que é, meu irmão?

...É a batida de um coração

É a doce ilusão."

Chico Buarque também escreveu ‘O Futebol’ para mostrar a beleza estética e o alívio que o jogo traz.

"Para essa pelada que joga a lenda

Se essa bola é pele, se essa bola é prenda

Se essa bola é vida."

Lia Silva - junho de 2026



FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

DUNKER, Christian. A Reinvenção do Espaço Público: Política e Psicanálise no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2022.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2002.

TURNER, Victor. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974 (Conceito de Communitas).

quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Ver a vida acontecer como um dia de domingo"

Há uma canção linda, imortalizada na voz inesquecível de Gal Costa, que enaltece o domingo. O trecho da canção diz assim: “ver a vida acontecer como um dia de domingo".

Que significado oculto há por trás dessa fantasia do dia de domingo? Fica claro que o domingo vai muito além de uma simples folha no calendário ou de um descanso na rotina.

Para a psicanálise, o domingo funciona como uma verdadeira fresta temporal por onde o nosso inconsciente consegue escapar. Durante a semana, nossa mente é governada pelo que Freud chamou de "Princípio da Realidade", um estado em que somos esmagados pela produtividade, pelos horários rígidos e pelas exigências sociais.

Quando o domingo chega, essa lógica da utilidade é finalmente suspensa, abrindo espaço para o "Princípio do Prazer", onde o tempo cronológico perde o poder absoluto e o desejo puro pode finalmente falar mais alto.

É por essa razão que a canção repete, de forma quase hipnótica e obsessiva, a frase "faz de conta que ainda é cedo". Esse verso funciona como um clássico mecanismo de negação inconsciente, uma recusa saudável do tempo linear que tenta afastar a iminência da segunda-feira e o retorno inevitável das obrigações do mundo real.

O inconsciente, afinal, é atemporal; ele não reconhece o relógio e deseja apenas a eternidade daquele instante de satisfação. Sob essa atmosfera de suspensão, a busca descrita na letra por "respirar o mesmo ar" e "ter na pele o mesmo sol" reflete uma profunda fantasia de simbiose amorosa, um desejo psíquico de fusão total com o outro que remete ao acolhimento e à plenitude da nossa infância mais primeva.

Essa quebra das amarras cotidianas explica por que o domingo é o dia mais poetizado da nossa cultura. Como a censura interna diminui e as defesas do ego relaxam, os sentimentos reprimidos ganham passagem livre para emergir.

A poesia e o inconsciente dividem a mesma matéria-prima — a metáfora e a linguagem dos afetos —, transformando o domingo no cenário perfeito para a vida "acontecer" de verdade, guiada pela emoção e pela voz do coração.

Mesmo a melancolia que costuma invadir o fim de tarde desse dia nada mais é do que a expressão da nossa falta constituinte, aquela saudade de uma totalidade impossível. Assim, escrever e cantar sobre o domingo torna-se uma forma de traduzir o invisível, criando uma narrativa poética indispensável para suportarmos o retorno à realidade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Paz que Escolhi

Houve um tempo — longo demais, confesso — em que eu gastava meus dias tentando construir pontes. 

Eu acreditava que, com as palavras certas e o tom exato, conseguiríamos chegar a um lugar comum, onde o entendimento fosse bom para ambos os lados.

Mas, pouco a pouco, percebi que minhas tentativas de compreensão eram engolidas pelo ruído. 

Onde eu buscava harmonia, o outro só buscava o ringue.

O amadurecimento me trouxe uma lucidez silenciosa: existem almas que se alimentam do conflito. 

São viciadas no embate pelo prazer do atrito, sem nenhuma intenção de aprender ou de encontrar o meio termo. Para essas pessoas, a vitória não é o consenso, é o desgaste alheio.

Foi então que desisti.

Não por cansaço, mas por escolha.

Sou feita de paz.

E hoje, não gasto um suspiro sequer com quem faz da discórdia o seu lar. 

Diante do vício de quem ama a briga, eu ofereço o meu silêncio e o meu distanciamento. 

Vivo melhor assim, sem batalhas inúteis para lutar.

No fim das contas, aprendi a lição mais preciosa de todas: eu prefiro ter paz do que ter razão.

Muitas vezes, a nossa paz depende de uma única palavra que deixamos de dizer. Você já sentiu a liberdade de desistir de uma discussão que não era sua?


Lia Silva 
Fev. 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Do filme Dança Comigo?

Há uma cena simples e profunda no filme Dança Comigo? que passa quase despercebida em meio à leveza da dança.

A esposa, interpretada por Susan Sarandon, desconfiada de que o marido (Richard Gere) possa estar traindo-a, contrata um detetive. A esposa e o detetive se encontram num bar. Não há lágrimas dramáticas, apenas cansaço e lucidez. Ela não fala sobre traição. Ela fala sobre solidão. Diz que existem bilhões de pessoas no mundo e que, sozinha, uma vida parece pequena demais. Quase invisível. Mas que, quando duas pessoas se comprometem, é como se dissessem uma à outra: “Eu vou prestar atenção em você. Eu vou te notar. Sua vida não vai passar despercebida, porque eu estou aqui para vê-la.”

Não é posse. Não é controle. É testemunho. Essa fala tocou algo muito profundo em mim, pois fala de um olhar que nos faz existir. Desde o início da vida, aprendemos quem somos no olhar de alguém. O bebê descobre que é real quando alguém o segura, o chama pelo nome, responde ao seu choro. Sem esse olhar, o mundo vira vazio. A alma se sente transparente. Precisamos ser vistos. Não vistos como desempenho ou aparência, mas vistos como presença: “eu reconheço você, eu me importo com sua história.” No fundo, todo afeto humano carrega essa pergunta silenciosa: “Você me enxerga?”

O Evangelho é o olhar de Deus. O Evangelho nos diz que ninguém vive sem testemunha. Antes mesmo de qualquer relação humana, existe um Deus que vê. Um Deus que conta os fios de cabelo, que chama pelo nome, que percebe a lágrima secreta. Um Deus que, em Jesus, para diante de pessoas invisíveis e diz: “Eu te vi.” Foi assim com Zaqueu na árvore; com a mulher junto ao poço; com o cego à beira do caminho.

O milagre começa quando alguém é notado. É como se Deus dissesse continuamente: “Sua vida não é acidental. Eu estou te olhando. Você importa.”

A cena do filme fala de casamento, mas a verdade é maior do que isso. Toda amizade profunda, todo gesto de cuidado, toda escuta paciente repete o mesmo sacramento cotidiano: quando você se senta ao lado de alguém em sofrimento, quando pergunta “como você está?” e realmente espera a resposta, quando guarda a memória da história de alguém — você se torna testemunha daquela vida.

E isso é amor. É assim que a Igreja precisa ser: uma comunidade que vê, acolhe e ama a todos, sem distinção.

Amar é dizer: “Você não vai atravessar o mundo sozinho.” “Eu vejo você.” “Eu fico.” Talvez seja isso que nos salve da invisibilidade: sermos, uns para os outros, pequenos reflexos do olhar fiel de Deus. Porque, no fim, existir é isso: ter alguém que testemunhe que passamos por aqui.


Lia Silva
30 de janeiro de 2026

A força que nasce da vulnerabilidade

Vivemos em uma cultura que valoriza a força, a autonomia e o desempenho. Espera-se que as pessoas estejam sempre bem, produtivas e emocionalmente resolvidas. Nesse cenário, a vulnerabilidade costuma ser interpretada como fraqueza ou falha moral. O Evangelho, porém, oferece uma inversão profunda dessa lógica: nele, a fragilidade não é obstáculo à experiência de Deus, mas lugar privilegiado de encontro.

Jesus inicia o Sermão da Montanha com uma afirmação desconcertante: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:3). Longe de glorificar a miséria, essa bem-aventurança aponta para uma atitude interior de abertura. Os pobres em espírito são aqueles que reconhecem seus limites e não se apoiam na ilusão da autossuficiência.

Paul Tillich observa que a fé nasce justamente quando o ser humano se confronta com sua finitude e, ainda assim, encontra coragem para existir. O Reino, portanto, não é conquista dos fortes, mas dom oferecido aos que reconhecem sua própria falta.

Os Evangelhos apresentam um Jesus profundamente humano. Ele chora a morte de Lázaro (Jo 11:35), sente compaixão das multidões cansadas e expressa angústia diante da morte. No Getsêmani, sua oração revela medo e desejo de escapar do sofrimento: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Lc 22:42).

Essa cena é teologicamente decisiva. Jesus não nega sua vulnerabilidade para obedecer a Deus; ele a expressa. Jürgen Moltmann interpreta a cruz como revelação de um Deus que sofre com a humanidade e se solidariza com a dor do mundo. A vulnerabilidade, assim, não é apenas humana, mas também teológica.

A leitura minuciosa dos Evangelhos mostra que a cruz não deve ser lida como glorificação do sofrimento. Ela denuncia sistemas religiosos, políticos e sociais que produzem morte e exclusão. O grito de Jesus — “Meu Deus, por que me abandonaste?” ) — não indica ausência de fé, mas expressa o desamparo vivido por tantos corpos vulneráveis ao longo da história.

Dorothee Sölle lê esse clamor como protesto e solidariedade com os que sofrem. Deus não deseja a cruz, mas está presente onde a vida é violentada.

A psicanálise oferece importantes chaves de leitura para esse tema. Freud e Lacan afirmam que o sujeito humano é constituído pela falta; não há completude possível. Grande parte do sofrimento psíquico nasce da tentativa de negar essa condição. Donald Winnicott acrescenta que o amadurecimento emocional só é possível em um “ambiente suficientemente bom”, onde a fragilidade possa ser acolhida. Quando não há espaço para a vulnerabilidade, o sujeito constrói defesas rígidas, afastando-se de si mesmo. O Evangelho, ao reunir pessoas feridas em torno da mesa, antecipa essa intuição: a cura passa pela relação, não pela perfeição.

O Cristo ressuscitado não retorna com um corpo idealizado. Ele conserva as marcas da cruz e as mostra aos discípulos. A ressurreição não apaga a história; ela a transforma. Também na psicanálise, elaborar o sofrimento não significa esquecê-lo, mas integrá-lo de modo menos destrutivo. As feridas permanecem, mas deixam de definir totalmente a existência.

Se a vulnerabilidade também é lugar de vida, a comunidade espiritual deveria ser espaço seguro para a fragilidade humana. Uma religião que exige força constante e certezas absolutas acaba reproduzindo a lógica excludente que o Evangelho questiona.

Jesus nunca chamou pessoas prontas. Ele chamou pessoas reais. A fé, à luz do Evangelho, não se mede pela ausência de dor ou dúvida, mas pela capacidade de permanecer em relação — com Deus, com o outro e consigo mesmo — mesmo quando a falta se impõe.

Assumir a vulnerabilidade não é sinal de fracasso, mas gesto de honestidade existencial. É reconhecer que a força que sustenta a vida não nasce do controle, mas da relação. Como escreve o apóstolo Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12:10). Não porque a fraqueza seja idealizada, mas porque nela se abre espaço para a graça, o cuidado e a comunhão.

Lia Silva 
02 de fevereiro de 2026

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida – Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

TILLICH, Paul. A coragem de ser. São Paulo: Paz e Terra, 1976.

MOLTMANN, Jürgen. O Deus Crucificado. Santo André: Academia Cristã, 2011.

SÖLLE, Dorothee. O sofrimento. Petrópolis: Vozes, 1979.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: ______. Obras completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Somos quem NÃO somos

Não somos apenas o que pensamos, falamos ou escrevemos,

Não somos apenas o que pregamos para o outro.

Somos também o que não dizemos,

a palavra que falta no vocabulário,

somos também aquilo que fazemos fora do olhar de outrem,

Somos também as atitudes que ninguém nunca viu,

somos também o choro que só o travesseiro enxuga,

somos também a palavra que não sai no meio de uma discussão,

somos também o que lutamos para esconder,

Somos o nó na garganta,

o grito abafado no peito,

o verso nunca transcrito no papel,

o pedido de perdão,

os nãos e os sins que só dizemos olhando pro espelho.

Somos a marcha ré dada na contra mão,

somos o inverso que ninguém repara,

o buraco numa costura impecável,

somos o que poucos veem a olho nu.

Somos o que somos dentro do nosso pijama,

quando despimos nossa armadura de forte pra contemplar o sono,

ou a insônia.

Somos a face amanhecida na quentura do leito,

somos apenas um corpo buscando certezas para encarar a rotina e,

com maestria,

revestimos nossa pele com o que queremos realmente ser.

E nem somos, mas sempre tentamos.

 

26/01/2025 - (Por Ju Fuzetto – adaptado por Lia Silva)

 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Promessa

 
Anoiteceu aqui no pé das montanhas majestosas da Mata Atlântica. 

Há sombras e penumbra ao longo da estrada. 

Há nevoeiro e chuva fina.

Faróis velozes rasgam a escuridão.

E então a lembrança daquele abraço 

lampejou em minha memória

E a minha alma sorriu. 

E a escuridão já não é tão escura. 

"As árvores bateram palmas",

E o nevoeiro sorriu tímido entre os faróis que lhe atravessam.


Lia Silva 

21/12/2024 - em viagem pelo sul do Brasil