sábado, 10 de outubro de 2026

Linhas Rígidas

Ele cruza a soleira no mesmo segundo de sempre, mesmo quando chove, mesmo quando o mundo lá fora desaba.

Há um conforto geométrico na repetição. Uma ilusão quase sagrada de que, ao domesticar os horários, ele controla o tempo, o destino e o cão.

Preso à extremidade do couro, ele caminha imponente. Não percebe que a coleira tem duas pontas e que, na verdade, é o animal que o arrasta pelos dias.

Velho e exausto, o cão cumpre a sua sina com uma resignação quase humana. Sabendo-se mestre daquela coreografia, o homem goza na transferência de seus próprios silêncios. Alimenta o monólogo convicto:

— É claro que esse cão me entende!

E assim caminha, tagarelando suas pequenas esquisitices para as orelhas caídas do bicho. Leva o cão para passear, mas esquece de levar os próprios olhos. Passa pelas esquinas sem ver as frestas.

Protegido pelo escudo invisível do hábito, ele se esconde de si mesmo. Prefere o asfalto já gasto a ter que inventar uma nova rota, esquecendo-se de que a segurança da gaiola também é o seu cativeiro.  


Lia Silva 
10/10/2026

A Beleza do Meu Cotidiano

O luxo de acordar no tempo do corpo, sem a violência do despertador nem as rédeas de uma rotina exigente.

Sorver o café ainda fumegante, com a lentidão sagrada de quem, por um instante, fez o tempo parar.

O mistério e a entrega no olhar dos meus gatos, que me decifram em silêncio.

A Penne tecendo carinhos ao redor dos meus pés logo cedo; o amanhecer mais bonito do mundo traduzido em ronrom.

O estalo sutil da fechadura que anuncia o retorno do meu filho; olho para ele e o peito aperta de tanto orgulho: meu Deus, como ele é lindo!

O eco sagrado da palavra “mamãe” moldada nos lábios de um adolescente de 16 anos. Um laço que o tempo não desgasta.

O prazer de tomar posse da minha própria voz, sentando-me para parir as minhas palavras, e não apenas testemunhar as dos outros.

Contemplar a cama desfeita e a pia cheia de louça e respirar em paz. Sem culpa. Descobrir que a bagunça da casa é, às vezes, o preço de uma alma livre.

O batismo da água fria na pele quente: um banho que lava a alma e me devolve inteira para mim mesma.


Lia Silva

10/10/2026

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O que o Salmo 23 e a Psicanálise nos ensinam sobre a dor

Deus não nos poupa do caminho, mas nos salva da solidão absoluta de percorrê-lo.

O teólogo Dietrich Bonhoeffer escreveu certa vez uma frase que confronta nossa necessidade infantil de controle: "Deus está conosco não resolvendo os problemas, mas suportando-os conosco". 

É uma afirmação dura para uma cultura que busca alívio imediato e soluções mágicas. No entanto, ela guarda uma simetria perfeita com um dos textos mais conhecidos da história humana.

Lembra do Salmo 23:4?
“... Não temerei porque... Tu estás comigo.”

Perceba que o salmista não celebra o sumiço dos problemas. Ele não diz que o vale da sombra da morte foi cancelado, que os inimigos desapareceram ou que a dor foi magicamente evaporada. 

O que anula o medo não é a ausência do perigo. É a presença do Vínculo.

Na psicanálise, o pediatra e analista Donald Winnicott introduziu o conceito de holding — que significa sustentação ou colo. Quando um bebê entra em angústia por uma cólica ou pelo próprio estranhamento com o mundo, a mãe muitas vezes não consegue arrancar a dor dele instantaneamente. 

O que ela faz? Ela o segura firme. O colo comunica à psique da criança que aquela dor, por mais assustadora que pareça, é suportável porque não é vivida na solidão.

O que Bonhoeffer e o Salmista descrevem é uma espécie de "Holding Divino".

Crescer emocional e espiritualmente exige abandonar a ilusão de um Deus estilo "Papai Noel", que usamos como amuleto para saltar as frentes frias da vida. 

O amadurecimento acontece quando entendemos que o maior pavor humano não é o obstáculo em si, mas o desamparo absoluto diante dele.

Caminhar pelo vale continua exigindo o esforço das nossas próprias pernas. A dor ainda dói. Mas o paradoxo da fé — e da saúde mental — se estabelece no silêncio da travessia: saber que há um Outro confiável testemunhando e sustentando a nossa existência na retaguarda.

Não estamos imunes aos problemas do mundo. Mas estamos, definitivamente, acompanhados.


Lia Silva 
Escritora e Psicanalista 

17/09/2025

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Sagrado na rotina: o que a Psicanálise nos ensina sobre espiritualidade e o vazio cotidiano

Existe um hábito silencioso em nossa cultura de vincular a espiritualidade a horários e lugares marcados. Acreditamos que a conexão com o transcendente só acontece quando abrimos um livro sagrado ou quando exercemos determinadas atividades dentro de um templo ou num lugar considerado sagrado.
Criamos, sem perceber, uma linha divisível e cruel na mente: de um lado fica o Sagrado, o puro e o intocável; do outro, o trânsito barulhento, a louça acumulada na pia, as cobranças do trabalho e os boletos que vencem no fim do mês.

Na psicanálise, essa separação drástica reflete um mecanismo de defesa clássico: a cisão. Quando a psique encontra dificuldades para lidar com as frustrações da realidade real, ela divide o mundo em dois polos opostos.
De um lado, projeta uma espiritualidade idealizada e flutuante; do outro, enxerga o cotidiano como algo desprovido de valor. O preço dessa fragmentação é uma sensação crônica de vazio e cansaço. Ao insistirmos que Deus ou a paz só habitam o extraordinário, transformamos os nossos dias em um fardo cinzento e estéril.

Essa busca por uma conexão desconectada da matéria gera a armadilha da cobrança por uma santidade performática. Passamos a exigir de nós mesmos rituais complexos para alcançar uma validação interna.
A teoria analítica nos mostra que essa busca por cenários intocáveis é o aprisionamento em um Ideal do Ego neurotizante — um juiz interno implacável que rejeita a nossa própria humanidade.
A espiritualidade madura precisa ser, antes de tudo, pé no chão. Ela entende que a paz interior não depende de uma ausência de problemas materiais, mas de aprender a integrar as nossas faltas e contradições.

A verdadeira saúde mental e espiritual caminha no sentido de integrar o self, unindo o céu e a terra dentro de nós. Uma espiritualidade encarnada não foge da realidade concreta; ela mergulha nela. O amadurecimento interior acontece quando desarmamos as defesas que nos isolam na abstração e percebemos que o trabalho honesto, a conversa despretensiosa com um amigo, o cuidado com os filhos e até mesmo o acolhimento do nosso próprio cansaço são os verdadeiros altares onde a empatia e o afeto florescem espontaneamente.

Trazer essa percepção para a prática não exige rituais complexos, mas uma mudança na qualidade da nossa atenção. O convite é para um exercício simples de presença consciente: na próxima vez em que você se pegar imerso em uma tarefa perfeitamente comum — seja lavando a louça, esperando o sinal abrir no trânsito ou tomando o primeiro gole de café pela manhã —, faça uma pausa mental de trinta segundos. 

Em vez de deixar o pensamento fugir para uma idealização distante, sinta o peso do seu corpo no chão, respire fundo e observe o que está acontecendo exatamente agora.

Pergunte-se silenciosamente: “De que forma o Sagrado opera nesta tarefa tão comum?” ou “Onde está a beleza sutil deste instante que eu estava ignorando? ou ainda, “Como posso manifestar afeto e paciência neste exato segundo?”.

Desarmar o piloto automático por alguns instantes ajuda a romper a cisão da mente, permitindo-nos resgatar o sentido do Sagrado que já habita o chão da nossa realidade concreta.

Lia Silva 
Escritora e Psicanalista 

16/09/2025

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tricotando memórias, desmanchando excessos e reaprendendo a ter paciência comigo mesma

Depois de décadas de afastamento, este ano eu voltei a tricotar.

Aprendi o ofício com a minha avó, durante as tardes geladas do inverno gaúcho que passávamos juntas ao redor do fogão a lenha. À época, eu ainda era uma criança e a atividade não passava de um desafio divertido. Lembro-me perfeitamente de vê-la contando os pontos na agulha de dois em dois, enquanto eu me perguntava: "como ela consegue contar pulando os números?". Sem que eu percebesse, ela também ensinava matemática à sua neta mais velha.
Há alguns meses, meu pensamento parecia fixado nela. Sonhei muitas noites seguidas com a sua presença. Movida pela saudade, resolvi testar minha memória e resgatar o nosso tricotar. Para a minha surpresa, descobri que minhas mãos ainda lembravam dos movimentos que ela me ensinou. O que começou como uma forma de acolher a nostalgia virou um hobby e, logo em seguida, um espelho para a vida.
Em uma sessão de terapia, comentei com a minha analista sobre a alegria recém-descoberta. Expliquei que ainda estava reaprendendo o ritmo: alguns pontos ficavam muito apertados, outros muito soltos, correndo o risco de comprometer o resultado final. Foi a partir dessa fala que um profundo processo de autoconhecimento começou.
Minha analista me fez perceber o quanto o ato de tricotar estava conectado com o meu momento atual, com as minhas tentativas de lidar com as dores, com os traumas, com a minha rigidez e com os meus "não-sei" — aceitando que está tudo bem não saber tudo. Reaprender a tricotar transformou-se em aprender a lidar comigo mesma. Tecer uma peça tornou-se o equivalente a acolher a minha própria história.
A foto que acompanha este texto mostra minhas tentativas de confeccionar uma meia — justamente a peça que a minha avó fazia para presentear os netos. Olhando para ela, vejo um rastro de tentativas e erros até chegar a um modelo final mais próximo da realidade. Da primeira tentativa ao modelo final, cada meia carrega um erro, um acerto e muita coragem.
Precisei recomeçar do zero inúmeras vezes. Todo o trabalho de construção que não ficava bom era desfeito. Enfrentei o desafio de acertar a quantidade ideal de pontos, a escolha do desenho, a combinação das cores e o improviso quando o fio acabava sem um novelo igual para repor. Vivenciei o ponto apertado, o ponto frouxo e o ponto que escapou da agulha e sumiu, o que me obrigou a reiniciar o trabalho.
Por enquanto, o resultado final ainda não está
perfeito aos meus olhos. Sei que posso evoluir, mas já aceito que nunca alcançarei a perfeição, simplesmente porque ela não existe. O que existe é o que posso fazer hoje, o que dou conta de entregar e o que posso aprender para o amanhã.
No fim das contas, minha avó não me ensinou apenas a cruzar fios de lã. Ela abriu caminhos para que eu tivesse uma compreensão muito maior de mim mesma e das escolhas que faço diariamente. Já não sinto frustração ao ter que recomeçar. Afinal, a vida de todo mundo é feita desses ciclos, embora nem todos consigam perceber.
João Guimarães Rosa foi preciso quando escreveu em Grande Sertão: Veredas: “O que a vida quer da gente é coragem!”
Enquanto tricoto a minha própria trajetória, vou reconhecendo as minhas coragens. É certo que vou errar em algumas fileiras, mas o verdadeiro valor reside na resiliência, na insistência e na capacidade de tentar de novo. Até que tenhamos vivido o melhor que podíamos com aquilo que a vida nos ofertou.

Lia Silva 
20 de julho de 2026.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Celebrar um gol em um mundo em guerra, é alienação ou sobrevivência psíquica?

 

A Copa do Mundo não é apenas sobre futebol; ela funciona como um espelho e um amortecedor para as angústias de um mundo fraturado por guerras e polarizações. Em momentos de dor coletiva, o esporte opera como uma das poucas ferramentas capazes de canalizar afetos violentos e devolver o direito à alegria para populações historicamente sofridas.

Enquanto que o mundo real – guerras, polarização e ódio – produz uma frustração sem destino, a Copa oferece uma forma de canalizar a agressividade, com catarse, ritual e sublimação.

Para compreender o fenômeno das massas durante a Copa do Mundo, a psicanálise oferece duas chaves de leitura essenciais:

  • Sublimação: Mecanismo que transforma pulsões destrutivas em atividades socialmente aceitas e produtivas.
  • Mal-estar na Civilização: A renúncia que o sujeito faz de seus instintos violentos para viver em sociedade, gerando uma frustração constante.

Sigmund Freud, em sua obra clássica O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a vida em sociedade exige o controle das nossas pulsões agressivas. O futebol funciona como uma arena ritualística onde essa agressividade reprimida pode ser descarregada de forma segura e simbólica.

"A substituição do poder do indivíduo pelo poder da comunidade é o passo decisivo da civilização." — Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização.

Christian Dunker, psicanalista brasileiro contemporâneo, discute exaustivamente as lógicas de condomínio e a polarização social. Ele explica como os grandes rituais coletivos ajudam a refazer laços em sociedades fragmentadas pelo ódio político.

Em um cenário global marcado por trincheiras ideológicas e conflitos armados, a Copa do Mundo altera temporariamente a dinâmica das fronteiras. Ela cria o que o antropólogo Victor Turner chamava de communitas: um estado de igualdade e comunhão que suspende temporariamente as hierarquias e divisões do dia a dia.

Isso quer dizer que o rival vira adversário: no campo de jogo, o "outro" deixa de ser um inimigo a ser aniquilado (lógica da guerra) e passa a ser um oponente a ser superado sob regras rígidas comuns (lógica do esporte).

Para quem enfrenta a dureza da fome, do desemprego ou do medo da violência, a celebração de um gol não é alienação; é sobrevivência psíquica. A alegria coletiva reconecta o indivíduo à sua dignidade e ao sentimento de pertencimento.

Há algumas referências artísticas que traduzem o poder do futebol no imaginário popular.

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade compreendia o futebol como uma crônica da própria vida. No poema O Torcedor, ele ilustra essa suspensão da realidade:

"O torcedor esquece a própria dor e projeta-se na dor e na glória do seu clube. Ali ele é gigante, ali ele é feliz."

A música de Gonzaguinha - O Que É, O Que É? – é perfeita para ilustrar a resiliência de um povo sofrido que escolhe celebrar.

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

E a vida o que é, meu irmão?

...É a batida de um coração

É a doce ilusão."

Chico Buarque também escreveu ‘O Futebol’ para mostrar a beleza estética e o alívio que o jogo traz.

"Para essa pelada que joga a lenda

Se essa bola é pele, se essa bola é prenda

Se essa bola é vida."

Lia Silva - junho de 2026



FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

DUNKER, Christian. A Reinvenção do Espaço Público: Política e Psicanálise no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2022.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2002.

TURNER, Victor. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974 (Conceito de Communitas).

quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Ver a vida acontecer como um dia de domingo"

Há uma canção linda, imortalizada na voz inesquecível de Gal Costa, que enaltece o domingo. O trecho da canção diz assim: “ver a vida acontecer como um dia de domingo".

Que significado oculto há por trás dessa fantasia do dia de domingo? Fica claro que o domingo vai muito além de uma simples folha no calendário ou de um descanso na rotina.

Para a psicanálise, o domingo funciona como uma verdadeira fresta temporal por onde o nosso inconsciente consegue escapar. Durante a semana, nossa mente é governada pelo que Freud chamou de "Princípio da Realidade", um estado em que somos esmagados pela produtividade, pelos horários rígidos e pelas exigências sociais.

Quando o domingo chega, essa lógica da utilidade é finalmente suspensa, abrindo espaço para o "Princípio do Prazer", onde o tempo cronológico perde o poder absoluto e o desejo puro pode finalmente falar mais alto.

É por essa razão que a canção repete, de forma quase hipnótica e obsessiva, a frase "faz de conta que ainda é cedo". Esse verso funciona como um clássico mecanismo de negação inconsciente, uma recusa saudável do tempo linear que tenta afastar a iminência da segunda-feira e o retorno inevitável das obrigações do mundo real.

O inconsciente, afinal, é atemporal; ele não reconhece o relógio e deseja apenas a eternidade daquele instante de satisfação. Sob essa atmosfera de suspensão, a busca descrita na letra por "respirar o mesmo ar" e "ter na pele o mesmo sol" reflete uma profunda fantasia de simbiose amorosa, um desejo psíquico de fusão total com o outro que remete ao acolhimento e à plenitude da nossa infância mais primeva.

Essa quebra das amarras cotidianas explica por que o domingo é o dia mais poetizado da nossa cultura. Como a censura interna diminui e as defesas do ego relaxam, os sentimentos reprimidos ganham passagem livre para emergir.

A poesia e o inconsciente dividem a mesma matéria-prima — a metáfora e a linguagem dos afetos —, transformando o domingo no cenário perfeito para a vida "acontecer" de verdade, guiada pela emoção e pela voz do coração.

Mesmo a melancolia que costuma invadir o fim de tarde desse dia nada mais é do que a expressão da nossa falta constituinte, aquela saudade de uma totalidade impossível. Assim, escrever e cantar sobre o domingo torna-se uma forma de traduzir o invisível, criando uma narrativa poética indispensável para suportarmos o retorno à realidade.

Linhas Rígidas