segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Do filme Dança Comigo?

Há uma cena simples e profunda no filme Dança Comigo? que passa quase despercebida em meio à leveza da dança.

A esposa, interpretada por Susan Sarandon, desconfiada de que o marido (Richard Gere) possa estar traindo-a, contrata um detetive. A esposa e o detetive se encontram num bar. Não há lágrimas dramáticas, apenas cansaço e lucidez. Ela não fala sobre traição. Ela fala sobre solidão. Diz que existem bilhões de pessoas no mundo e que, sozinha, uma vida parece pequena demais. Quase invisível. Mas que, quando duas pessoas se comprometem, é como se dissessem uma à outra: “Eu vou prestar atenção em você. Eu vou te notar. Sua vida não vai passar despercebida, porque eu estou aqui para vê-la.”

Não é posse. Não é controle. É testemunho. Essa fala tocou algo muito profundo em mim, pois fala de um olhar que nos faz existir. Desde o início da vida, aprendemos quem somos no olhar de alguém. O bebê descobre que é real quando alguém o segura, o chama pelo nome, responde ao seu choro. Sem esse olhar, o mundo vira vazio. A alma se sente transparente. Precisamos ser vistos. Não vistos como desempenho ou aparência, mas vistos como presença: “eu reconheço você, eu me importo com sua história.” No fundo, todo afeto humano carrega essa pergunta silenciosa: “Você me enxerga?”

O Evangelho é o olhar de Deus. O Evangelho nos diz que ninguém vive sem testemunha. Antes mesmo de qualquer relação humana, existe um Deus que vê. Um Deus que conta os fios de cabelo, que chama pelo nome, que percebe a lágrima secreta. Um Deus que, em Jesus, para diante de pessoas invisíveis e diz: “Eu te vi.” Foi assim com Zaqueu na árvore; com a mulher junto ao poço; com o cego à beira do caminho.

O milagre começa quando alguém é notado. É como se Deus dissesse continuamente: “Sua vida não é acidental. Eu estou te olhando. Você importa.”

A cena do filme fala de casamento, mas a verdade é maior do que isso. Toda amizade profunda, todo gesto de cuidado, toda escuta paciente repete o mesmo sacramento cotidiano: quando você se senta ao lado de alguém em sofrimento, quando pergunta “como você está?” e realmente espera a resposta, quando guarda a memória da história de alguém — você se torna testemunha daquela vida.

E isso é amor. É assim que a Igreja precisa ser: uma comunidade que vê, acolhe e ama a todos, sem distinção.

Amar é dizer: “Você não vai atravessar o mundo sozinho.” “Eu vejo você.” “Eu fico.” Talvez seja isso que nos salve da invisibilidade: sermos, uns para os outros, pequenos reflexos do olhar fiel de Deus. Porque, no fim, existir é isso: ter alguém que testemunhe que passamos por aqui.


Lia Silva
30 de janeiro de 2026

A força que nasce da vulnerabilidade

Vivemos em uma cultura que valoriza a força, a autonomia e o desempenho. Espera-se que as pessoas estejam sempre bem, produtivas e emocionalmente resolvidas. Nesse cenário, a vulnerabilidade costuma ser interpretada como fraqueza ou falha moral. O Evangelho, porém, oferece uma inversão profunda dessa lógica: nele, a fragilidade não é obstáculo à experiência de Deus, mas lugar privilegiado de encontro.

Jesus inicia o Sermão da Montanha com uma afirmação desconcertante: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:3). Longe de glorificar a miséria, essa bem-aventurança aponta para uma atitude interior de abertura. Os pobres em espírito são aqueles que reconhecem seus limites e não se apoiam na ilusão da autossuficiência.

Paul Tillich observa que a fé nasce justamente quando o ser humano se confronta com sua finitude e, ainda assim, encontra coragem para existir. O Reino, portanto, não é conquista dos fortes, mas dom oferecido aos que reconhecem sua própria falta.

Os Evangelhos apresentam um Jesus profundamente humano. Ele chora a morte de Lázaro (Jo 11:35), sente compaixão das multidões cansadas e expressa angústia diante da morte. No Getsêmani, sua oração revela medo e desejo de escapar do sofrimento: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Lc 22:42).

Essa cena é teologicamente decisiva. Jesus não nega sua vulnerabilidade para obedecer a Deus; ele a expressa. Jürgen Moltmann interpreta a cruz como revelação de um Deus que sofre com a humanidade e se solidariza com a dor do mundo. A vulnerabilidade, assim, não é apenas humana, mas também teológica.

A leitura minuciosa dos Evangelhos mostra que a cruz não deve ser lida como glorificação do sofrimento. Ela denuncia sistemas religiosos, políticos e sociais que produzem morte e exclusão. O grito de Jesus — “Meu Deus, por que me abandonaste?” ) — não indica ausência de fé, mas expressa o desamparo vivido por tantos corpos vulneráveis ao longo da história.

Dorothee Sölle lê esse clamor como protesto e solidariedade com os que sofrem. Deus não deseja a cruz, mas está presente onde a vida é violentada.

A psicanálise oferece importantes chaves de leitura para esse tema. Freud e Lacan afirmam que o sujeito humano é constituído pela falta; não há completude possível. Grande parte do sofrimento psíquico nasce da tentativa de negar essa condição. Donald Winnicott acrescenta que o amadurecimento emocional só é possível em um “ambiente suficientemente bom”, onde a fragilidade possa ser acolhida. Quando não há espaço para a vulnerabilidade, o sujeito constrói defesas rígidas, afastando-se de si mesmo. O Evangelho, ao reunir pessoas feridas em torno da mesa, antecipa essa intuição: a cura passa pela relação, não pela perfeição.

O Cristo ressuscitado não retorna com um corpo idealizado. Ele conserva as marcas da cruz e as mostra aos discípulos. A ressurreição não apaga a história; ela a transforma. Também na psicanálise, elaborar o sofrimento não significa esquecê-lo, mas integrá-lo de modo menos destrutivo. As feridas permanecem, mas deixam de definir totalmente a existência.

Se a vulnerabilidade também é lugar de vida, a comunidade espiritual deveria ser espaço seguro para a fragilidade humana. Uma religião que exige força constante e certezas absolutas acaba reproduzindo a lógica excludente que o Evangelho questiona.

Jesus nunca chamou pessoas prontas. Ele chamou pessoas reais. A fé, à luz do Evangelho, não se mede pela ausência de dor ou dúvida, mas pela capacidade de permanecer em relação — com Deus, com o outro e consigo mesmo — mesmo quando a falta se impõe.

Assumir a vulnerabilidade não é sinal de fracasso, mas gesto de honestidade existencial. É reconhecer que a força que sustenta a vida não nasce do controle, mas da relação. Como escreve o apóstolo Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12:10). Não porque a fraqueza seja idealizada, mas porque nela se abre espaço para a graça, o cuidado e a comunhão.

Lia Silva 
02 de fevereiro de 2026

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida – Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

TILLICH, Paul. A coragem de ser. São Paulo: Paz e Terra, 1976.

MOLTMANN, Jürgen. O Deus Crucificado. Santo André: Academia Cristã, 2011.

SÖLLE, Dorothee. O sofrimento. Petrópolis: Vozes, 1979.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: ______. Obras completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

Do filme Dança Comigo?