quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Ver a vida acontecer como um dia de domingo"

Há uma canção linda, imortalizada na voz inesquecível de Gal Costa, que enaltece o domingo. O trecho da canção diz assim: “ver a vida acontecer como um dia de domingo".

Que significado oculto há por trás dessa fantasia do dia de domingo? Fica claro que o domingo vai muito além de uma simples folha no calendário ou de um descanso na rotina.

Para a psicanálise, o domingo funciona como uma verdadeira fresta temporal por onde o nosso inconsciente consegue escapar. Durante a semana, nossa mente é governada pelo que Freud chamou de "Princípio da Realidade", um estado em que somos esmagados pela produtividade, pelos horários rígidos e pelas exigências sociais.

Quando o domingo chega, essa lógica da utilidade é finalmente suspensa, abrindo espaço para o "Princípio do Prazer", onde o tempo cronológico perde o poder absoluto e o desejo puro pode finalmente falar mais alto.

É por essa razão que a canção repete, de forma quase hipnótica e obsessiva, a frase "faz de conta que ainda é cedo". Esse verso funciona como um clássico mecanismo de negação inconsciente, uma recusa saudável do tempo linear que tenta afastar a iminência da segunda-feira e o retorno inevitável das obrigações do mundo real.

O inconsciente, afinal, é atemporal; ele não reconhece o relógio e deseja apenas a eternidade daquele instante de satisfação. Sob essa atmosfera de suspensão, a busca descrita na letra por "respirar o mesmo ar" e "ter na pele o mesmo sol" reflete uma profunda fantasia de simbiose amorosa, um desejo psíquico de fusão total com o outro que remete ao acolhimento e à plenitude da nossa infância mais primeva.

Essa quebra das amarras cotidianas explica por que o domingo é o dia mais poetizado da nossa cultura. Como a censura interna diminui e as defesas do ego relaxam, os sentimentos reprimidos ganham passagem livre para emergir.

A poesia e o inconsciente dividem a mesma matéria-prima — a metáfora e a linguagem dos afetos —, transformando o domingo no cenário perfeito para a vida "acontecer" de verdade, guiada pela emoção e pela voz do coração.

Mesmo a melancolia que costuma invadir o fim de tarde desse dia nada mais é do que a expressão da nossa falta constituinte, aquela saudade de uma totalidade impossível. Assim, escrever e cantar sobre o domingo torna-se uma forma de traduzir o invisível, criando uma narrativa poética indispensável para suportarmos o retorno à realidade.