A Copa do Mundo não é apenas sobre futebol; ela funciona como um espelho e um amortecedor para as angústias de um mundo fraturado por guerras e polarizações. Em momentos de dor coletiva, o esporte opera como uma das poucas ferramentas capazes de canalizar afetos violentos e devolver o direito à alegria para populações historicamente sofridas.
Enquanto que o mundo real – guerras, polarização e
ódio – produz uma frustração sem destino, a Copa oferece uma forma de canalizar
a agressividade, com catarse, ritual e sublimação.
Para compreender o fenômeno das massas durante a
Copa do Mundo, a psicanálise oferece duas chaves de leitura essenciais:
- Sublimação: Mecanismo que
transforma pulsões destrutivas em atividades socialmente aceitas e
produtivas.
- Mal-estar na Civilização: A
renúncia que o sujeito faz de seus instintos violentos para viver em
sociedade, gerando uma frustração constante.
Sigmund
Freud, em sua obra clássica O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta
que a vida em sociedade exige o controle das nossas pulsões agressivas. O
futebol funciona como uma arena ritualística onde essa agressividade reprimida
pode ser descarregada de forma segura e simbólica.
"A
substituição do poder do indivíduo pelo poder da comunidade é o passo decisivo
da civilização." — Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização.
Christian
Dunker, psicanalista brasileiro contemporâneo, discute exaustivamente as
lógicas de condomínio e a polarização social. Ele explica como os grandes
rituais coletivos ajudam a refazer laços em sociedades fragmentadas pelo ódio
político.
Em um
cenário global marcado por trincheiras ideológicas e conflitos armados, a Copa
do Mundo altera temporariamente a dinâmica das fronteiras. Ela cria o que o
antropólogo Victor Turner chamava de communitas: um estado de igualdade
e comunhão que suspende temporariamente as hierarquias e divisões do dia a dia.
Isso quer
dizer que o rival vira adversário: no campo de jogo, o "outro" deixa
de ser um inimigo a ser aniquilado (lógica da guerra) e passa a ser um oponente
a ser superado sob regras rígidas comuns (lógica do esporte).
Para quem
enfrenta a dureza da fome, do desemprego ou do medo da violência, a celebração
de um gol não é alienação; é sobrevivência psíquica. A alegria coletiva
reconecta o indivíduo à sua dignidade e ao sentimento de pertencimento.
Há algumas referências artísticas que traduzem o
poder do futebol no imaginário popular.
O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade compreendia
o futebol como uma crônica da própria vida. No poema O Torcedor, ele
ilustra essa suspensão da realidade:
"O
torcedor esquece a própria dor e projeta-se na dor e na glória do seu clube.
Ali ele é gigante, ali ele é feliz."
A música
de Gonzaguinha - O Que É, O Que É? – é perfeita para ilustrar a resiliência de
um povo sofrido que escolhe celebrar.
"Viver
e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e
cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...
E a vida
o que é, meu irmão?
...É a
batida de um coração
É a doce
ilusão."
Chico
Buarque também escreveu ‘O Futebol’ para mostrar a beleza estética e o alívio
que o jogo traz.
"Para
essa pelada que joga a lenda
Se essa
bola é pele, se essa bola é prenda
Se essa
bola é vida."
Lia Silva - junho de 2026
FREUD,
Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). Edição Standard Brasileira
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
DUNKER,
Christian. A Reinvenção do Espaço Público: Política e Psicanálise no Brasil
Contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2022.
ANDRADE,
Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record,
2002.
TURNER,
Victor. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-estrutura. Petrópolis:
Vozes, 1974 (Conceito de Communitas).

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