segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tricotando memórias, desmanchando excessos e reaprendendo a ter paciência comigo mesma

Depois de décadas de afastamento, este ano eu voltei a tricotar.

Aprendi o ofício com a minha avó, durante as tardes geladas do inverno gaúcho que passávamos juntas ao redor do fogão a lenha. À época, eu ainda era uma criança e a atividade não passava de um desafio divertido. Lembro-me perfeitamente de vê-la contando os pontos na agulha de dois em dois, enquanto eu me perguntava: "como ela consegue contar pulando os números?". Sem que eu percebesse, ela também ensinava matemática à sua neta mais velha.
Há alguns meses, meu pensamento parecia fixado nela. Sonhei muitas noites seguidas com a sua presença. Movida pela saudade, resolvi testar minha memória e resgatar o nosso tricotar. Para a minha surpresa, descobri que minhas mãos ainda lembravam dos movimentos que ela me ensinou. O que começou como uma forma de acolher a nostalgia virou um hobby e, logo em seguida, um espelho para a vida.
Em uma sessão de terapia, comentei com a minha analista sobre a alegria recém-descoberta. Expliquei que ainda estava reaprendendo o ritmo: alguns pontos ficavam muito apertados, outros muito soltos, correndo o risco de comprometer o resultado final. Foi a partir dessa fala que um profundo processo de autoconhecimento começou.
Minha analista me fez perceber o quanto o ato de tricotar estava conectado com o meu momento atual, com as minhas tentativas de lidar com as dores, com os traumas, com a minha rigidez e com os meus "não-sei" — aceitando que está tudo bem não saber tudo. Reaprender a tricotar transformou-se em aprender a lidar comigo mesma. Tecer uma peça tornou-se o equivalente a acolher a minha própria história.
A foto que acompanha este texto mostra minhas tentativas de confeccionar uma meia — justamente a peça que a minha avó fazia para presentear os netos. Olhando para ela, vejo um rastro de tentativas e erros até chegar a um modelo final mais próximo da realidade. Da primeira tentativa ao modelo final, cada meia carrega um erro, um acerto e muita coragem.
Precisei recomeçar do zero inúmeras vezes. Todo o trabalho de construção que não ficava bom era desfeito. Enfrentei o desafio de acertar a quantidade ideal de pontos, a escolha do desenho, a combinação das cores e o improviso quando o fio acabava sem um novelo igual para repor. Vivenciei o ponto apertado, o ponto frouxo e o ponto que escapou da agulha e sumiu, o que me obrigou a reiniciar o trabalho.
Por enquanto, o resultado final ainda não está
perfeito aos meus olhos. Sei que posso evoluir, mas já aceito que nunca alcançarei a perfeição, simplesmente porque ela não existe. O que existe é o que posso fazer hoje, o que dou conta de entregar e o que posso aprender para o amanhã.
No fim das contas, minha avó não me ensinou apenas a cruzar fios de lã. Ela abriu caminhos para que eu tivesse uma compreensão muito maior de mim mesma e das escolhas que faço diariamente. Já não sinto frustração ao ter que recomeçar. Afinal, a vida de todo mundo é feita desses ciclos, embora nem todos consigam perceber.
João Guimarães Rosa foi preciso quando escreveu em Grande Sertão: Veredas: “O que a vida quer da gente é coragem!”
Enquanto tricoto a minha própria trajetória, vou reconhecendo as minhas coragens. É certo que vou errar em algumas fileiras, mas o verdadeiro valor reside na resiliência, na insistência e na capacidade de tentar de novo. Até que tenhamos vivido o melhor que podíamos com aquilo que a vida nos ofertou.

Lia Silva 
20 de julho de 2026.

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