Existe um hábito silencioso em nossa cultura de vincular a espiritualidade a horários e lugares marcados. Acreditamos que a conexão com o transcendente só acontece quando abrimos um livro sagrado ou quando exercemos determinadas atividades dentro de um templo ou num lugar considerado sagrado.
Criamos, sem perceber, uma linha divisível e cruel na mente: de um lado fica o Sagrado, o puro e o intocável; do outro, o trânsito barulhento, a louça acumulada na pia, as cobranças do trabalho e os boletos que vencem no fim do mês.
Na psicanálise, essa separação drástica reflete um
mecanismo de defesa clássico: a cisão. Quando a psique encontra dificuldades
para lidar com as frustrações da realidade real, ela divide o mundo em dois
polos opostos.
De um lado, projeta uma espiritualidade idealizada e flutuante;
do outro, enxerga o cotidiano como algo desprovido de valor. O preço dessa
fragmentação é uma sensação crônica de vazio e cansaço. Ao insistirmos que Deus
ou a paz só habitam o extraordinário, transformamos os nossos dias em um fardo
cinzento e estéril.
Essa busca por uma conexão desconectada da matéria
gera a armadilha da cobrança por uma santidade performática. Passamos a exigir
de nós mesmos rituais complexos para alcançar uma validação interna.
A teoria
analítica nos mostra que essa busca por cenários intocáveis é o aprisionamento
em um Ideal do Ego neurotizante — um juiz interno implacável que rejeita a
nossa própria humanidade.
A espiritualidade madura precisa ser, antes de tudo, pé
no chão. Ela entende que a paz interior não depende de uma ausência de
problemas materiais, mas de aprender a integrar as nossas faltas e
contradições.
A verdadeira saúde mental e espiritual caminha no
sentido de integrar o self, unindo o céu e a terra dentro de nós. Uma
espiritualidade encarnada não foge da realidade concreta; ela mergulha nela. O
amadurecimento interior acontece quando desarmamos as defesas que nos isolam na
abstração e percebemos que o trabalho honesto, a conversa despretensiosa com um
amigo, o cuidado com os filhos e até mesmo o acolhimento do nosso próprio
cansaço são os verdadeiros altares onde a empatia e o afeto florescem
espontaneamente.
Trazer essa percepção para a prática não exige rituais complexos, mas uma mudança na qualidade da nossa atenção. O convite é para um exercício simples de presença consciente: na próxima vez em que você se pegar imerso em uma tarefa perfeitamente comum — seja lavando a louça, esperando o sinal abrir no trânsito ou tomando o primeiro gole de café pela manhã —, faça uma pausa mental de trinta segundos.
Em vez de deixar o pensamento fugir para uma idealização distante, sinta o peso do seu corpo no chão, respire fundo e observe o que está acontecendo exatamente agora.
Pergunte-se silenciosamente: “De
que forma o Sagrado opera nesta tarefa tão comum?” ou “Onde está a beleza sutil deste instante que
eu estava ignorando? ou ainda, “Como posso manifestar afeto e paciência
neste exato segundo?”.
Desarmar o piloto automático por alguns instantes ajuda a romper a cisão
da mente, permitindo-nos resgatar o sentido do Sagrado que já habita o chão da
nossa realidade concreta.
Lia Silva
Escritora e Psicanalista
16/09/2025

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