O luxo de
acordar no tempo do corpo, sem a violência do despertador nem as rédeas de uma rotina exigente.
Sorver o café ainda fumegante, com a lentidão sagrada de quem, por um instante, fez o tempo parar.
O mistério e a entrega no olhar dos meus gatos, que me decifram em silêncio.
A Penne tecendo carinhos ao redor dos meus pés logo cedo; o amanhecer mais bonito do mundo traduzido em ronrom.
O estalo sutil da fechadura que anuncia o retorno do meu filho; olho para ele e o peito aperta de tanto orgulho: meu Deus, como ele é lindo!
O eco sagrado da palavra “mamãe” moldada nos lábios de um adolescente de 16 anos. Um laço que o tempo não desgasta.
O prazer de tomar posse da minha própria voz, sentando-me para parir as minhas palavras, e não apenas testemunhar as dos outros.
Contemplar a cama desfeita e a pia cheia de louça e respirar em paz. Sem culpa. Descobrir que a bagunça da casa é, às vezes, o preço de uma alma livre.
O batismo da água fria na pele quente: um banho que lava a alma e me devolve inteira para mim mesma.
Lia Silva
10/10/2026
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