Ele cruza a soleira no mesmo
segundo de sempre, mesmo quando chove, mesmo quando o mundo lá fora desaba.
Há um conforto geométrico na
repetição. Uma ilusão quase sagrada de que, ao domesticar os horários, ele
controla o tempo, o destino e o cão.
Preso à extremidade do couro, ele
caminha imponente. Não percebe que a coleira tem duas pontas e que, na verdade,
é o animal que o arrasta pelos dias.
Velho e exausto, o cão cumpre a
sua sina com uma resignação quase humana. Sabendo-se mestre daquela
coreografia, o homem goza na transferência de seus próprios silêncios. Alimenta
o monólogo convicto:
— É claro que esse cão me entende!
E assim caminha, tagarelando suas
pequenas esquisitices para as orelhas caídas do bicho. Leva o cão para passear,
mas esquece de levar os próprios olhos. Passa pelas esquinas sem ver as
frestas.
Protegido pelo escudo invisível
do hábito, ele se esconde de si mesmo. Prefere o asfalto já gasto a ter que
inventar uma nova rota, esquecendo-se de que a segurança da gaiola também é o
seu cativeiro.
Lia Silva
10/10/2026

