Hoje o passado me assaltou em silêncio.
Abri uma gaveta antiga da memória e me vi visitando
os dias em que o riso era fácil, o afeto era bicho manso e nós éramos felizes.
Chorei de saudade. Uma saudade mansa, não da sua
presença, mas dos instantes suspensos no tempo que outrora nos pertenceram.
Dói nas costuras da alma saber que a felicidade já
morou em nós, para logo depois assistir ao desmoronamento de tudo, soterrado
pelo teu egoísmo.
Ainda arde a lembrança da escassez de afeto que
veio em seguida, das noites desérticas e sem abrigo com que fui tratada.
Minha alma sente a penúria de saber-se amada e
desejada; tem sede daquela parceria antiga e da cumplicidade que o vento levou.
Saber de quem você se tornou hoje, no entanto, me
causa um profundo estranhamento, um amargor que me aperta o peito.
Você se transformou em uma criatura tão distante
daquela que amei. Ou será que o teu avesso sempre esteve ali, e eu, embriagada
por um amor que transcendia a própria razão, me recusava a enxergar?
Não há retorno: eu não quero você.
O que persigo agora é o amor em sua clareza, o
direito sagrado de ser amada.
Quero a calmaria de caminhar ao lado de uma alma
íntegra, alguém que saiba acolher o cuidado e se permita, enfim, ser amado.
Do que fomos, restam apenas cinzas saudosas de um
tempo que o relógio já não sabe mais contar.
Lia Silva
Dia de finados 2026