segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O fantasma do que fomos

 Hoje o passado me assaltou em silêncio.

Abri uma gaveta antiga da memória e me vi visitando os dias em que o riso era fácil, o afeto era bicho manso e nós éramos felizes.

Chorei de saudade. Uma saudade mansa, não da sua presença, mas dos instantes suspensos no tempo que outrora nos pertenceram.

Dói nas costuras da alma saber que a felicidade já morou em nós, para logo depois assistir ao desmoronamento de tudo, soterrado pelo teu egoísmo.

Ainda arde a lembrança da escassez de afeto que veio em seguida, das noites desérticas e sem abrigo com que fui tratada.

Minha alma sente a penúria de saber-se amada e desejada; tem sede daquela parceria antiga e da cumplicidade que o vento levou.

Saber de quem você se tornou hoje, no entanto, me causa um profundo estranhamento, um amargor que me aperta o peito.

Você se transformou em uma criatura tão distante daquela que amei. Ou será que o teu avesso sempre esteve ali, e eu, embriagada por um amor que transcendia a própria razão, me recusava a enxergar?

Não há retorno: eu não quero você.

O que persigo agora é o amor em sua clareza, o direito sagrado de ser amada.

Quero a calmaria de caminhar ao lado de uma alma íntegra, alguém que saiba acolher o cuidado e se permita, enfim, ser amado.

Do que fomos, restam apenas cinzas saudosas de um tempo que o relógio já não sabe mais contar.


Lia Silva 
Dia de finados 2026

 

O fantasma do que fomos