domingo, 26 de janeiro de 2025

Somos quem NÃO somos

Não somos apenas o que pensamos, falamos ou escrevemos,

Não somos apenas o que pregamos para o outro.

Somos também o que não dizemos,

a palavra que falta no vocabulário,

somos também aquilo que fazemos fora do olhar de outrem,

Somos também as atitudes que ninguém nunca viu,

somos também o choro que só o travesseiro enxuga,

somos também a palavra que não sai no meio de uma discussão,

somos também o que lutamos para esconder,

Somos o nó na garganta,

o grito abafado no peito,

o verso nunca transcrito no papel,

o pedido de perdão,

os nãos e os sins que só dizemos olhando pro espelho.

Somos a marcha ré dada na contra mão,

somos o inverso que ninguém repara,

o buraco numa costura impecável,

somos o que poucos veem a olho nu.

Somos o que somos dentro do nosso pijama,

quando despimos nossa armadura de forte pra contemplar o sono,

ou a insônia.

Somos a face amanhecida na quentura do leito,

somos apenas um corpo buscando certezas para encarar a rotina e,

com maestria,

revestimos nossa pele com o que queremos realmente ser.

E nem somos, mas sempre tentamos.

 

26/01/2025 - (Por Ju Fuzetto – adaptado por Lia Silva)

 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Promessa

 
Anoiteceu aqui no pé das montanhas majestosas da Mata Atlântica. 

Há sombras e penumbra ao longo da estrada. 

Há nevoeiro e chuva fina.

Faróis velozes rasgam a escuridão.

E então a lembrança daquele abraço 

lampejou em minha memória

E a minha alma sorriu. 

E a escuridão já não é tão escura. 

"As árvores bateram palmas",

E o nevoeiro sorriu tímido entre os faróis que lhe atravessam.


Lia Silva 

21/12/2024 - em viagem pelo sul do Brasil


Os cinco sentidos

Com a maciez do gramado sob os pés,

Com a melodia suave dos pássaros seduzindo o coração,

Com o sol aquecendo cada centímetro de pele,

Com a beleza exuberante da natureza enchendo os olhos,

Em meio ao perfume exótico das flores e da diversidade das plantas,

Um gosto de extravagante simplicidade se espalha pelo paladar da alma.

Entre a meditação contemplativa e a roupa coberta de folhas secas,

Eis que surge um momento etéreo,

Inesperado ...

Irresistível ...

E um beijo inocente torna-se o ponto alto

De uma manhã que já se tornara inesquecível.  


Lia Silva 

08/01/2025

Foto: Jardim Botânico Plantarum - Nova Odessa, SP

domingo, 1 de dezembro de 2024

Óh, dor!

 Óh, dor! 

Tu que ardes de dentro para fora,

E queimas minhas esperanças,

E varre meu futuro para longe.

Óh, dor! 

Tu que tinges de cinza o sonho,

E duvidas da alegria,

Tu que me banhas em lágrimas,

E engordas o meu pranto.

Óh, dor! 

Tu que chegas sorrateira,

Invades a alma,

Expandes os limites do coração

Com teus espinhos atrozes,

Quais garras sangrentas.

Óh, dor! 

Tu que apagas minha luz interior,

Que encobres com tuas sombras

Cada cantinho da alma,

E me faz duvidar que mereço ser feliz.

Óh, dor! 

Óh, dor! 

Óh, dor! 



Lia Silva 
Novembro de 2024


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Tempo, tempo, tempo...

Nesta foto, vemos a representação de Cronos - o deus do tempo.

Neste dia, eu puxei-lhe as barbas em protesto à velocidade que ele imprime em minha história.

Hoje completo 45 anos, mas não sei ao certo se foi rápido ou tem sido lento. 

Não há precisão quando falamos dele, porque ele é sentido e experimentado de forma única e pessoal em diferentes tempos da vida.

Ao olhar para trás, tenho percepções diferentes de quem fui e de quem sou hoje.

Em cada estação da vida havia uma Lia diferente, uma Lia tentando dar conta daquele momento.

Hoje sei que não posso ser definida.

Sou quem consigo ser em cada ocasião.

Nem sempre gosto de quem sou.

Outras vezes, apaixono-me por mim e ganho novos ares, respiro e sigo para o futuro...

Esse deus não dá conta de mim. Eu é que tenho tentado dar conta dele, usufruindo dos momentos com intensidade.

Aos poucos, fui me tornando amiga do tempo e aproveitando-me dele para ser uma pessoa melhor.

A consciência foi sendo expandida no relacionamento com o Deus mais pessoal, mais íntimo, mais presente, mais amoroso, mais aconchegante.

Penso que minha maior conquista ao longo dos anos de vida foi ganhar a expansão da consciência para viver do Deus-vivo, aquelE que desfez os nós religiosos que me amarraram a uma existência curta, rasa e cheia de culpas.

Reconheço minha identidade de filha dEle e isso me basta.

Nele, em quem não há sombra de variação, O único que era, que É e para sempre será, Naquele que criou o tempo e em quem me sustento
.


Lia Silva - 30 de julho de 2024 - 45 anos aprendendo a ser eu. 

terça-feira, 5 de março de 2024

O Vazio

"Somos seres desejantes, destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar" — Jacques Lacan

Quando aceitamos nossas limitações e deixamos de encará-las como um problema emocional, pacificamos nossa relação conosco mesmos. 
Nosso grande erro é tentar tapar essa falta interior, esse buraco estrutural na alma, com a presença de outra pessoa. 
Essa solidão nos constitui; nenhum par romântico pode eliminá-la. 
Não existe alma gêmea. 
Não existe tampa da panela. 
Relacionamentos saudáveis são construções diárias entre duas pessoas inteiramente cientes de suas próprias falhas.
Fomos ensinados pela cultura — músicas, filmes, novelas — a crer que o amor é uma mágica que anula o vazio.
Ilusão.
Passamos a vida correndo para saciar desejos, buscando fora o que nos falta por dentro. Para amadurecer, precisamos acolher nossa própria falta.
No entanto, aceitar a incompletude não significa caminhar em isolamento absoluto ou bastar-se a si mesmo. 
Na psicanálise, o sujeito só se constitui através do Outro. É nesse horizonte que a nossa fala nasce, o nosso desejo ganha nome e a nossa existência se torna possível. O Outro não é uma dependência neurótica nem uma necessidade de amparo, mas o lugar sagrado da alteridade.
Há, de fato, uma dimensão de transcendência nesse vazio que carregamos. Mas essa força sutil, esse Absoluto que nos habita, não serve para anular o mundo ou nos isolar em uma autossuficiência divina. 
Pelo contrário: a verdadeira transcendência analítica é aquela que nos empurra para fora de nós mesmos. Ela se manifesta justamente no mistério do encontro.

Não buscamos o Outro para preencher o buraco da alma, mas porque é na fenda da nossa própria incompletude que o amor se torna um ato de fé no semelhante. 
O Outro importa porque ele é o espelho do inacessível. Amar é o gesto transcendente de suportar o próprio vazio para dar espaço ao mistério de quem o outro é.


Lia Silva - julho de 2022 - revisado em 14/07/2026


Somos Todos Errados!

O erro iguala os seres humanos, uma vez que todos nós erramos.

O que difere um indivíduo do outro é a forma como cada um lida com seus erros.

Os sábios reconhecem seus erros, admitem seus deslizes, conhecem seus limites e não tem medo de olhar para si mesmos a fim de retratarem-se e mudar de postura, crescer, evoluir, amadurecer.

Os incautos não reconhecem seus erros, recusam olhar para dentro e admitir suas fraquezas e deslizes. Seguem na vida acusando e culpando outros por seus erros. São arrogantes, orgulhosos, intratáveis e não evoluem.

Por isso Jesus nos convidou a andar com ele e imitá-lo. 

Quanto mais parecidos com ele nos tornamos, melhores seres humanos seremos. 

Não porque deixamos de errar, mas porque aprendemos a pedir perdão, a perdoar e melhorar a nós mesmos e aos nossos relacionamentos interpessoais. 


Lia Silva, abril de 2023