domingo, 1 de dezembro de 2024

Óh, dor!

 Óh, dor! 

Tu que ardes de dentro para fora,

E queimas minhas esperanças,

E varre meu futuro para longe.

Óh, dor! 

Tu que tinges de cinza o sonho,

E duvidas da alegria,

Tu que me banhas em lágrimas,

E engordas o meu pranto.

Óh, dor! 

Tu que chegas sorrateira,

Invades a alma,

Expandes os limites do coração

Com teus espinhos atrozes,

Quais garras sangrentas.

Óh, dor! 

Tu que apagas minha luz interior,

Que encobres com tuas sombras

Cada cantinho da alma,

E me faz duvidar que mereço ser feliz.

Óh, dor! 

Óh, dor! 

Óh, dor! 



Lia Silva 
Novembro de 2024


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Tempo, tempo, tempo...

Nesta foto, vemos a representação de Cronos - o deus do tempo.

Neste dia, eu puxei-lhe as barbas em protesto à velocidade que ele imprime em minha história.

Hoje completo 45 anos, mas não sei ao certo se foi rápido ou tem sido lento. 

Não há precisão quando falamos dele, porque ele é sentido e experimentado de forma única e pessoal em diferentes tempos da vida.

Ao olhar para trás, tenho percepções diferentes de quem fui e de quem sou hoje.

Em cada estação da vida havia uma Lia diferente, uma Lia tentando dar conta daquele momento.

Hoje sei que não posso ser definida.

Sou quem consigo ser em cada ocasião.

Nem sempre gosto de quem sou.

Outras vezes, apaixono-me por mim e ganho novos ares, respiro e sigo para o futuro...

Esse deus não dá conta de mim. Eu é que tenho tentado dar conta dele, usufruindo dos momentos com intensidade.

Aos poucos, fui me tornando amiga do tempo e aproveitando-me dele para ser uma pessoa melhor.

A consciência foi sendo expandida no relacionamento com o Deus mais pessoal, mais íntimo, mais presente, mais amoroso, mais aconchegante.

Penso que minha maior conquista ao longo dos anos de vida foi ganhar a expansão da consciência para viver do Deus-vivo, aquelE que desfez os nós religiosos que me amarraram a uma existência curta, rasa e cheia de culpas.

Reconheço minha identidade de filha dEle e isso me basta.

Nele, em quem não há sombra de variação, O único que era, que É e para sempre será, Naquele que criou o tempo e em quem me sustento
.


Lia Silva - 30 de julho de 2024 - 45 anos aprendendo a ser eu. 

terça-feira, 5 de março de 2024

O Vazio

"Somos seres desejantes, destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar" — Jacques Lacan

Quando aceitamos nossas limitações e deixamos de encará-las como um problema emocional, pacificamos nossa relação conosco mesmos. 
Nosso grande erro é tentar tapar essa falta interior, esse buraco estrutural na alma, com a presença de outra pessoa. 
Essa solidão nos constitui; nenhum par romântico pode eliminá-la. 
Não existe alma gêmea. 
Não existe tampa da panela. 
Relacionamentos saudáveis são construções diárias entre duas pessoas inteiramente cientes de suas próprias falhas.
Fomos ensinados pela cultura — músicas, filmes, novelas — a crer que o amor é uma mágica que anula o vazio.
Ilusão.
Passamos a vida correndo para saciar desejos, buscando fora o que nos falta por dentro. Para amadurecer, precisamos acolher nossa própria falta.
No entanto, aceitar a incompletude não significa caminhar em isolamento absoluto ou bastar-se a si mesmo. 
Na psicanálise, o sujeito só se constitui através do Outro. É nesse horizonte que a nossa fala nasce, o nosso desejo ganha nome e a nossa existência se torna possível. O Outro não é uma dependência neurótica nem uma necessidade de amparo, mas o lugar sagrado da alteridade.
Há, de fato, uma dimensão de transcendência nesse vazio que carregamos. Mas essa força sutil, esse Absoluto que nos habita, não serve para anular o mundo ou nos isolar em uma autossuficiência divina. 
Pelo contrário: a verdadeira transcendência analítica é aquela que nos empurra para fora de nós mesmos. Ela se manifesta justamente no mistério do encontro.

Não buscamos o Outro para preencher o buraco da alma, mas porque é na fenda da nossa própria incompletude que o amor se torna um ato de fé no semelhante. 
O Outro importa porque ele é o espelho do inacessível. Amar é o gesto transcendente de suportar o próprio vazio para dar espaço ao mistério de quem o outro é.


Lia Silva - julho de 2022 - revisado em 14/07/2026


Somos Todos Errados!

O erro iguala os seres humanos, uma vez que todos nós erramos.

O que difere um indivíduo do outro é a forma como cada um lida com seus erros.

Os sábios reconhecem seus erros, admitem seus deslizes, conhecem seus limites e não tem medo de olhar para si mesmos a fim de retratarem-se e mudar de postura, crescer, evoluir, amadurecer.

Os incautos não reconhecem seus erros, recusam olhar para dentro e admitir suas fraquezas e deslizes. Seguem na vida acusando e culpando outros por seus erros. São arrogantes, orgulhosos, intratáveis e não evoluem.

Por isso Jesus nos convidou a andar com ele e imitá-lo. 

Quanto mais parecidos com ele nos tornamos, melhores seres humanos seremos. 

Não porque deixamos de errar, mas porque aprendemos a pedir perdão, a perdoar e melhorar a nós mesmos e aos nossos relacionamentos interpessoais. 


Lia Silva, abril de 2023

Páscoa

Na sexta-feira tem abandono, tem traição, tem tortura, tem dor, tem crucificação, tem morte.

No sábado tem o silêncio da sepultura, tem angústia, tem incerteza, tem escuridão de tumba. 

No domingo tem ressurreição, tem vida, tem recomeço, tem alegria, tem esperança.

Há que haver morte para que haja ressurreição.

Há que haver o silêncio do sepultamento para que renasça a manhã da nova vida. 

Há que haver esperança de que tudo tem seu tempo certo para acontecer. 

Deixe morrer em você o que precisa morrer.

Respeite o silêncio do sepultamento de suas dores e do passado.

Vibre e reviva com a alegria da ressurreição! 

O Domingo está chegando ... há esperança!


Lia Silva - Páscoa de 2023

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

 Ela foi mais uma dessas jovens noivas iludidas pela paixão. Naquele 30 de janeiro ela tinha 19 anos e meio. Era a própria Cinderela em seu momento de glória.

Seguindo o fluxo poderoso e impulsivo de todo jovem, ela também acreditava, de todo o coração, que poderia ‘mudar o mundo com seus moinhos de vento’. Tinha em si todos os sonhos, todas as certezas, toda a confiança que lhe fez encarar o desconhecido, a terra distante, o povo diferente. Ela carregava em seu jovem coração uma fantasia cheia de fé e grandezas.

Longe de casa, da família, dos amigos, dos costumes, da rotina, ela encarou um casamento com um estranho, alguém com quem – ela logo descobriu – não havia afinidade, sintonia, vínculo. Viviam em um lar comunitário entre missionários e sonhadores da fé alheia. Extasiada em sua fantasia que, embora desconhecida, era esperada, sorriu e chorou, aprendeu e desaprendeu, caiu e levantou-se, olhou para fora de si mesma pela primeira vez. Quando tornou a olhar para si, não gostou do que viu.

Viu os sonhos se desfazerem. O futuro, que parecia mais próximo, extinguiu-se languidamente. As ilusões se desfizeram. A fantasia tornou-se pesadelo. No ápice de seus 23 anos, viu-se ainda jovem, mas sozinha. O divórcio prematuro trouxe-lhe uma liberdade desconhecida. Em nova terra desconhecia, entre nova gente desconhecia, sem sonhos, sem desejos, sem ter para onde ir. O divórcio arrancara-lhe de vez a fantasia missionária.

Não perdeu a fé, mas não soube o que fazer com ela. Passou a viver um dia de cada vez. Sem fantasias, sem sonhos para perseguir, deixou-se ser levada pela vida. ‘Vida leva eu.’ Apaixonou-se novamente e desta vez pensou ser correspondida. Logo percebeu estar novamente enganada. Descobriu que a estrada do amor quase sempre é uma via de mão única.

Aos 30 anos, já na hora de ganhar maturidade, viu-se mais uma vez na estrada do amor e, desta vez, pensou estar em mão dupla. Tornou-se mãe. Cresceu. As fantasias eram recordações do passado. A maternidade levou-a a uma nova dimensão de amor e isso serviu para mostrar-lhe que a estrada do amor nunca é solitária, mas a do romance pode ser. Quase sempre é.

Vinte e cinco anos depois daquele 30 de janeiro, ela já não é uma jovenzinha sonhadora. O noivo que se casou com aquela jovem noiva já não está deste lado da vida. A noiva que já foi uma jovem sonhadora ainda sofre de ilusões fantasiosas. Não desistiu de esperar companhia na estrada do amor. Segue amando como consegue, tenta servir quem encontra pelo caminho, segue tendo fé (in)suficiente só pra hoje, sem sonhos megalomaníacos de querer salvar o mundo, basta a cada dia se deixar ser salva de si mesma e de seus delírios fantasiosos. A mulher de 44 tenta desesperadamente permanecer com os pés firmes no chão, com o coração teimosamente querendo descansar em quem pode, de fato, salvá-la. Com os pés no chão e os olhos na cruz, ela segue confiando que há um futuro com o qual sonhar e que esse sonho não é ilusão. É uma mania que ela tem: ter fé nos sonhos. Mesmo naqueles que nem os jovens cheios de força e desejo conseguem realizar.



Lia Silva
30/01/2024

Graça, escandalosa graça

 A Graça é escandalosa.

Fundamentalistas ficam desconcertados diante dela e só conseguem negá-la e atacar seus arautos.


 A Graça escandaliza porque oferece ao pecador aquilo que a meritocracia e a lógica humana não reconhecem.

É difícil aceitar de graça aquilo que a religião ensina que precisa ser conquistado pelo auto sacrifício.


Todo sacrifício necessário para nossa salvação foi cobrado de Cristo. Ele pagou.


Para nós, a salvação é pura Graça.


Lia Silva
Fev 2023