domingo, 6 de dezembro de 2020

Por amor

 

É sábado de manhã. Estou concentrada terminando uma reflexão bíblica, fazendo anotações, quando meu filho – 10 anos - aparece.

- O que tá fazendo, mamãe?

- Terminando de preparar uma reflexão que vou compartilhar online com um grupo de pessoas amanhã à noite.

- Ah! E você vai receber por isso?

- Não, filho! A gente não cobra para compartilhar a Palavra de Deus. Eu faço isso porque eu gosto de falar sobre o Evangelho. Eu faço por amor.

- Hum.

E saiu. Foi brincar. O dia passou e ele fez diversas atividades, recebeu o amiguinho, assistimos a um filme e, na hora de dormir, como sempre fazemos, lemos um trecho do Evangelho e oramos. Durante sua oração, eu ouço:

- Senhor, ajuda-me a espalhar o teu amor e contar para as pessoas que elas são amadas por ti. E o Senhor sabe que eu quero ser um dublador, mas se o Senhor quiser, eu também posso ser um pregador, assim como a minha mamãe é, e eu quero falar da tua palavra por amor, como ela faz.

Recebi minha recompensa.

Alma repleta. Satisfeita. Feliz.

Gratidão ao meu Senhor por ser capaz de ensinar sem palavras ao meu filho, e por saber que ele está aprendendo lições eternas!!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Girassóis

 Meu filho ganhou da escola sementes de girassol no dia das crianças.

Plantamos alguns dias depois.

E hoje eles estão assim!! Orgulhosamente mostrando sua beleza de jovens flores.

Ainda há alguns que em breve irão desabrochar. Mas a alegria de ver dois prematuros nos ensina uma lição importante:
As sementes chegaram para nós todas juntas, em um saquinho.

Todas foram plantadas no mesmo momento e receberam o mesmo cuidado.

Alguns deles cresceram mais do que os outros e ainda não desabrocharam.
Outros, menores, já estão floridos. E outros, ainda, estão em desenvolvimento mais lento e vão demorar para florir.

Vejo aí uma lição de individualidade.

Não é porque todos tiveram o mesmo tratamento, ao mesmo tempo, que estão florindo da mesma maneira.

Cada um, em seu tempo, vai dar as flores que tem para dar, mas não porque queremos, tampouco porque regamos ou cuidamos, mas porque eles têm seu próprio tempo e irão desabrochar segundo suas condições internas.

A individualidade é uma riqueza!

Precisamos aprender a respeitá-la mais!

Jesus nos trata segundo nossas individualidades! Ele sabe que o jeito que Ele trata o Fulano, não é o que funciona para Beltrano! Ele ama cada um com suas peculiaridades e como indivíduos.

Bora aprender com os girassóis ??? ❤ ❤

Seja como o girassol: busque a direção da luz!

Agora vamos ter os girassóis
No fim do ano
E o calor vem desumano.
Tudo irá se expandir,
Crescer com as águas,
Quiçá, amores nos corações.
Cassia Eller - Milagreiro

"Amor a gente não procura. É assim: você deixa a porta meio aberta, se distrai plantando girassóis e ele entra. Ele adora contrariar."
Caio Fernando Abreu

"Os girassóis crescem em meu jardim...
A primavera quer ficar
Mais uma estação
Dentro de mim..."
(Carmem Dalmazo)

Pensamento Positivo ou Fé?

Quando acordei hoje havia um áudio de uma querida amiga com um questionamento extremamente válido. Ela pedia-me ajuda para tentar compreender melhor a situação.
Tratava-se de uma pessoa – conhecida dela – que há dois anos sofria de um câncer, mas que mantinha a fé, a alegria, a positividade diante da vida. Todas a manhãs, essa enferma enviava mensagens positivas, com declarações de que cria em sua cura, que sabia que Deus estava com ela e coisas semelhantes. Mas ela faleceu. Apesar de sua fé na cura, ela faleceu.

Logo depois da minha conversa com esta amiga, conversei com outra antiga amiga, alguém que, em determinada época de minha vida, foi um anjo enviado por Deus para cuidar de mim. Ela relatou-me como este ano de 2020 foi difícil para ela, como passou por tantos e diversos sofrimentos, mas manteve a fé e que segue para 2021 revestida dessa fé. Ela então lembrou-se e relatou as situações que ela presenciou de pessoas no hospital de câncer onde ela, enfermeira, trabalhou durante anos. Ela viu muitos pais que, durante o tratamento, pareciam equilibrados e resilientes, confiantes em Deus, mas que, na hora da morte dos filhos, descompensavam totalmente, perdiam totalmente qualquer equilíbrio e desafiavam Deus para um duelo, para uma luta corpórea onde pudessem descontar toda sua raiva por Ele ter levado o serzinho tão amado deles.

Totalmente compreensível.  Não tenho nem noção de como seja a dor de perder um filho.
Mas o questionamento da minha primeira amiga, logo de manhã, era sobre a fé: por que alguém que demonstrava tanta fé, não alcançou seu milagre?

O que eu aprendi sobre o assunto fé ao longo da minha história de vida é o que posso compartilhar. Aprendi muito com os exemplos e os conceitos que temos na Bíblia, e também aprendi muito com minha própria história.

Entendo que a primeira coisa que precisamos fazer para entender algumas situações é fazer diferenciação entre “pensamento positivo” e “fé”. A positividade é algo que precisamos repetir todos os dias, renovar a cada novo problema, fazer mantra, cruzar os dedos e “confiar” que o pensamento positivo vai trazer para mim aquele resultado final que desejo.  Se eu alcanço aquilo que meu pensamento positivo reclamava, então sou inundado de euforia e até de alegria, mas com o passar dos dias, essa euforia se vai, e eu acabo esquecendo de tudo enquanto sigo com minha vida. Se meu pensamento positivo não alcança aquilo que eu almejava, a frustração, a descompostura, o desequilíbrio, a dor, a angústia são devastadores. Demora muito tempo para que as pessoas se recomponham e voltem a viver bem novamente – isso quando conseguem continuar vivendo.

A fé tem outra natureza. A fé não tem a ver com circunstâncias ou com sentimentos. A fé é uma certeza que habita águas muito mais profundas do que o pensamento positivo. 
A fé não é depositada em coisas ou desejos. A fé tem seu descanso em uma pessoa: Jesus Cristo.

Porque eu sei que sou amada por ele, então minha fé nele me sustenta durante as dores.
Porque eu sei que minha fé está em uma pessoa totalmente fiel, eu descanso no meio da tempestade.

Porque eu sei que Ele está comigo no vale da sombra da morte, eu encontro paz que excede todo entendimento.

A fé me faz andar, me faz prosseguir, mesmo que a dor seja cruel, porque sei que não estou andando sozinha.

Minha amiga “Anjo”, disse algo engraçado: as pessoas acham que a fé delas tem que ser remunerada. Ou seja: porque eu tenho fé, então Deus se torna meu devedor e tem que me pagar dando-me aquilo que eu demando.

Mas a fé não é remunerada desta forma. A fé existe para nos fazer andar em meio ao deserto, não para nos satisfazer as vontades. A fé verdadeira permanece intacta, mesmo quando meu desejo não é atendido.

Faz parte da fé questionar, faz parte da fé entristecer-se, faz parte da fé sofrer. Mas ela existe justamente para nos guiar até o outro lado do deserto. Quer as respostas cheguem, quer não cheguem.

Por último, a fé não é algo que a gente adquire tendo pensamentos positivos ou apenas desejando-a. Aprendemos que ela é um presente de Deus.  Portanto, querid@ leit@r, se você se considera alguém desprovid@ de fé em Cristo, peça-lhe e Ele mesmo vai te presentear com uma fé firme e inabalável. É Jesus Cristo quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar.

sábado, 14 de novembro de 2020

Espiritualidade em sociedade

Jesus foi um ser social. Ele se misturava com as pessoas e mostrava sua espiritualidade imerso na sociedade. O trecho narrado por João em seu evangelho (2:1-11) sobre o casamento em Caná ilustra com riqueza essa verdade.

Viver a espiritualidade em meio à vida social é o oposto do monasticismo. Para ser espiritual, não é necessário nos isolarmos em monastérios, em igrejas, em guetos, em comunidades. A espiritualidade proposta por Jesus é aquela que acolhe, convive e coexiste.

Além disso, Jesus estava sempre atento à situação ao seu redor. Jesus não veio ao mundo para salvar casamentos, sua missão não era atender os pedidos de sua mãe, nem veio para transformar água em vinho, muito menos para multiplicar pães ou curar doentes. No entanto, ao conviver em sociedade, ele prestou atenção em suas necessidades e foi sanando-as uma a uma. Discretamente, ele ia ajudando onde era necessário. Ele estava atento, sensível aos problemas, prestando atenção às dores e curando, alimentando, libertando, aliviando.

 Portanto, como discípulos deste Cristo - que é um ser sociável e engajado com aqueles com quem convive - eu também preciso aprender a desenvolver minha espiritualidade enquanto coexisto e convivo com meus semelhantes. Preciso apurar minha sensibilidade para as necessidades que me cercam e fazer o que posso para ajudar. Minha espiritualidade será saudável quando eu estiver atento ao ambiente social onde estou inserido e vou, gradativamente, melhorando-o. Amar pessoas é auxiliá-las em suas necessidades. Relacionar-se com as pessoas em seus ambientes é exercer espiritualidade. Estar fechado dentro de uma igreja, cantando e pregando de olhos fechados, não é a proposta de Cristo.

Encerro essa reflexão com uma parte da letra da canção “Em nome da Justiça”, de João Alexandre:

Quem conhece a Deus não pode ouvir e se calar
Tem que ser profeta e sua bandeira levantar
Transformar o mundo é uma questão de compromisso
É muito mais e tudo isso

Enquanto o domingo ainda for nosso dia sagrado
E em nome de Deus se deixar os feridos de lado
Enquanto o pecado ainda for tão somente um pecado
Vivido, sentido, embutido, espremido e pensado

Enquanto se canta e se dança de olhos fechados
Tem gente morrendo de fome por todos os lados
O Deus que se canta nem sempre é o Deus que se vive, não
Pois Deus se revela, se envolve, resolve e revive.

 

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

As janelas da alma e o caráter

Você já conviveu com pessoas que pensam que os outros estão sempre tramando contra elas?


São pessoas mal intencionadas que pensam que todos traem, que ninguém é confiável, e não se dão conta de que elas mesmas agem assim com os demais.

Quem não é confiável, não consegue confiar em mais ninguém.

Quem trai, acha que todos o estão traindo.

Quem é invejoso acha que os outros o invejam.

Este é um assunto antigo entre os humanos, e Jesus tratou disso. Mateus registrou suas palavras em 6:22-23:

“Os olhos são a janela do corpo. Se vocês abrirem bem os olhos, com admiração e fé, o seu corpo se encherá de luz. Se viverem com os olhos cheios de cobiça e desconfiança, o seu corpo será um celeiro cheio de grãos mofados. Se fecharem as cortinas dessa janela, sua vida será uma escuridão.” (Versão da Bíblia A Mensagem)

A versão da Bíblia Viva diz: “Se os seus olhos forem bons, haverá luz em todo o seu corpo. Mas se forem maus, seu corpo estará em profunda escuridão espiritual”.

A constituição de quem eu sou é meu caráter, e é isso que determina meu pensar. É meu caráter que vai educando meus pensamentos e sentimentos. Como consequência de meu caráter, vou construir um determinado tipo de vida e vou travando relacionamentos com os outros.

É por isso que aquele que é dono de um caráter duvidoso, vai sempre achar que os outros estão tramando contra ele. É uma projeção de si mesmo sobre aqueles que o cercam.

Jesus nos ensina a lidar com isso. Ele nos mostra como construir um caráter saudável que vai redundar em relacionamentos igualmente saudáveis.

Para conhecer um pouquinho mais sobre esse assunto, convido-lhe a assistir o vídeo abaixo. Em 21 minutos, Caio Fabio comenta o texto de Jesus e seus desdobramentos na vida das pessoas que vivem atrás dessa janela fechada, vendo tudo em escuridão, trevas e dores.


Meu desejo é que a Verdade liberte cada um que vive neste escuro “celeiro cheio de grãos mofados”.

Para liberdade é que Cristo nos libertou!

Liberte-se Nele e deixe livre aqueles que te cercam!

By Lia Silva em 09/11/2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Um caminhar necessário

 O ano é 2013. O mês é outubro, o que significa que meu filho acabou de completar 3 anos. É o primeiro ano dele na escola e o primeiro mês naquela escolinha em específico. As adaptações estão acontecendo lentamente, tanto para ele quanto para mim.

Faz poucos dias que ele parou de pedir que eu ficasse com ele na escola e parou de chorar no portão na hora de entrar. Nos primeiros dias a coordenadora pediu-me que entrasse com ele e o acompanhasse até a sala para facilitar a adaptação à nova escola e amiguinhos. Aos poucos, minha entrada foi ficando mais curta, já não ia até a porta da sala, ficava no meio da calçada e, finalmente, apenas no portão.  Durante alguns dias ele chorou bastante, agarrava-se a mim e não queria entrar, mas acabou entendendo e já não chora mais. Ele até avisa:

- Sabe mãe, hoje eu não vô chorá pa ficá na ixcola.

E não tem chorado mesmo. A professora que está no portão pega a mochila dele, segura em sua mão e o acompanha até a sala. Ele se afasta com um sorriso e vai acenando para mim. Mas, hoje foi diferente e quem chorou foi a mãe dele. A professora pegou a mochila, colocou-a nas costas dele e disse-lhe:

- Pode ir Dado, a tia Pri tá lá na sala esperando você.

Ele me olhou triste, eu estava do lado de fora do portão. Sorriu timidamente, acenou e foi andando pela calçada que leva ao interior do prédio. A visão do meu menininho sozinho, andando com a mochila nas costas e aquele sorrisinho cortou meu coração. Pensei:

“Tadinho, está sozinho!” – Mas ele pareceu não ligar muito. Foi andando devagar e eu não consigo parar de pensar naquela cena de um caminhar solitário. Tive a sensação de que aquela seria a primeira vez que meu menino enfrentaria o mundo sem mim. Tive ímpetos de ir ao encontro dele, segurar-lhe a mão e acompanhá-lo. Sei que isso o faria feliz, mas entendi que aquela seria só a primeira caminhada independente da vida dele. Ele precisará enfrentar muitas outras ao longo de sua história. Naquele momento experimentei o que milhares de mães ao redor do mundo experimentam: senti-me dividida entre o querer e o dever.

Fico me perguntando se algum dia este sentimento de querer participar de cada passo dos filhos acaba. Creio que não. Há momentos em que caminhar ao lado deles, segurando-lhe a mãozinha, é benéfico e positivo, mas há momentos em que é necessário para a saúde emocional deles que lhes soltemos a mão e os deixemos caminhar sozinhos, que façam as próprias descobertas, enfrentem seus medos. Mesmo que a gente fique olhando de longe com lágrimas escorrendo pelos olhos e um aperto sem fim no peito.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Evangélicos brasileiros e discípulos de Cristo

 

Há muitos cristãos brasileiros estarrecidos diante do cenário político, que já não se separa mais do religioso.

É uma situação extremamente grave, aviltante, humilhante para aqueles seguem a Cristo.

Fique aqui posto que, quando falo de Cristo, não estou me referindo à alguma religião fundada por homens em nome dele.

Estou falando de cidadãos que encontraram nele a razão de viver e seguem-no dia-a-dia. Estes não precisam de uma religião para sentirem-se legitimados.

Quem conhece um pouco da vida de Cristo quando esteve nesta terra sabe que ele não tinha intenção alguma de fundar uma nova religião.

Ele veio para ser o salvador de pessoas, para ser um modelo de Ser Humano para todos. Quem pelos caminhos dele trilha, tornar-se um Ser Humano mais humano, mais próximo daquilo para o que fomos criados.

Mas o homem tem sede pelo poder, pela dominância, sente prazer em sentir-se superior ao seu semelhante. 

Por causa disso, o chamado de Cristo para andar junto, vira instituição cristã liderada, controlada e dominada pelo Império estatal de Constantino (lá pelos anos 300 d.C.).

Todo tipo de podridão do coração humano enraizou-se na instituição chamada igreja cristã.

Os ensinos do Cristo foram esquecidos e desprezados em detrimento do poder, da ganância, do controle comportamental e moralista que detinham sobre a população.

A miséria social, a fome, a desigualdade já não eram mais vistas como pecado social, mas como um selecionador de quem era de Deus e de quem não era, de quem era digno de ser chamado filho de Deus e aqueles que não teriam essa honra concedida única e exclusivamente pela igreja.

Séculos se passaram e tudo aquilo que Jesus Cristo ensinou estava esquecido e enterrado debaixo de rituais eclesiásticos, banimentos e castigos físicos, normalização da miséria e legalização da desigualdade social. Tudo era visto como a vontade de deus.

Então, um homem atormentado por seu pecado, torna-se um clérigo e entende as palavras de Cristo sobre a graça salvadora. E ele muda o rumo da história religiosa-política.

Foi o monge Martinho Lutero que deu o pontapé inicial para a Reforma Protestante e, depois dele, outros vieram e dividiram a única instituição cristã que havia até então, em duas. De um lado, os “Protestantes Reformados” e do outro os “Católicos”.

Atualmente, quando falamos de Reforma, estamos nos referindo especificamente aos textos de Calvino que, depois de Lutero, é o mais popular dentre os reformadores.

No entanto, quando falamos de Protestantes, estamos evocando o nome de todos eles, dezenas e dezenas de homens que dedicaram suas vidas para trazer à luz o evangelho da graça de Cristo.  

Estes homens trouxeram à lembrança dos cristãos o que foi que Cristo ensinou sobre salvação.

Aprendemos que a salvação é pela graça, isso quer dizer que Deus salva o homem pelos méritos de Cristo.

Não há nada que o homem possa fazer para salvar-se a si próprio, mas Cristo fez tudo o que era necessário.

A nós, cabe-nos ter fé nos méritos de Cristo e viver uma vida de gratidão por um bem recebido sem merecimento e, constrangidos pelo amor, vamos nos tornando mais parecidos com ele.

Mas o ensino Protestante também se perdeu na obscuridade da alma humana.

O que presenciamos no Brasil hoje é fruto de mais distorções do evangelho da graça.

Distorções estas que criaram dezenas, senão centenas, de denominações evangélicas empenhadas em “evangelizar”.

Acontece que essa “evangelização” nada tem a ver com o Evangelho que Cristo pregou ou com os ensinamentos dos protestantes.

Os evangélicos pregam a salvação através da aprovação de Deus.

Para eu ser salvo, eu preciso ter a aprovação de Deus, e só a tem quem se comporta de tal ou tal forma.

Daí vem o discurso moralista comportamental, quando a meritocracia tem mais audiência do que a graça.  

Por isso é tão comum entre os evangélicos aquela lista interminável de “pode” e “não pode”.

Ser evangélico é ser reconhecido pelos itens que a pessoa cumpre ou deixa de cumprir.

Quando alguém deixa de cumprir um item da lista, é repreendido, humilhado publicamente e, por vezes, expulso do meio evangélico.

Daí a quantidade de denominações evangélicas existentes. Alguém que é expulso de uma comunidade, inconformado, funda sua própria denominação onde se torna o oráculo das regras e aquele que decide o que é permitido e o que não é.

Esse moralismo comportamental força os evangélicos a não aceitarem em seu meio aqueles que são ‘diferentes’, ou aqueles que não conseguem viver por sua cartilha.

Por isso encontramos entre eles tantos homofóbicos, misóginos, preconceituosos, ditadores compulsivos, arrogantes.

Embebidos pelo poder, eles acreditam que podem dominar o Brasil, pois é o “Brasil acima de tudo, e deus acima de todos”.

Na visão destes evangélicos, a fé é o poder. Pela fé, eles acreditam que podem governar um país impondo suas listinhas de deveres e sanções aos desobedientes.

Aprendemos com o evangelho de Cristo que a fé não é um poder. E o poder também não é a fé.

A fé é um elemento de convicção, mas não emana dela poder algum.

O poder é o Evangelho.

O poder é o próprio Cristo.

É revestido de fé Nele que o discípulo poderá viver como Cristo viveu neste mundo.

Essa fé faz com que o homem que está dela revestido possa viver uma vida de serviço e de amor, como Cristo viveu.

Mas os evangélicos usam a fé como sendo um poder para ganhar mais poder e travar batalhas espirituais contra aquilo que impede o avanço de seu poder.

As bases bolsonaristas estão na teologia da batalha espiritual e da prosperidade, e não na teologia da graça.

A convicção que eles têm de serem superiores e melhores porque são os eleitos de Deus é resultado de uma vulgarização do calvinismo ao longo da história.

A doutrina da eleição que Calvino ensinou foi vulgarizada e deu lugar a um discurso de privilégios que leva à segregação e estabelece uma relação de meritocracia entre os fieis e não fieis.

O cerne do que Calvino pregava era a graça, mas acabou se tornando apenas um discurso de hegemonia por causa da doutrina da eleição.

Isso leva a uma lógica de puro moralismo, pois é necessário ter a aprovação de Deus através das obras.

Essa relação que os evangélicos atuais têm com Deus é de poder e não mais de amor.

Se eu preciso da aprovação de Deus, então preciso ser moralmente correto, ou não serei aceito.

Ora, isso exclui completamente o elemento “amor”.

Só o amor é capaz de conviver com o contraditório, o poder não.

O poder exclui. O amor inclui e liberta.

Para quem vive pelo evangelho e para o evangelho, tem como mediador apenas a Trindade, o Cristo é o mediador.

Não é necessário um oráculo humano validando minha crença e muito menos uma instituição.

Mas, para os evangélicos, tanto a instituição como o oráculo – aquele homem de deus a quem todos devem ouvir e jamais questionar – são extremamente necessários para o avanço do poder.

Portanto, o moralismo pragmático que os evangélicos insistem em proclamar, e pelo qual excluem seres humanos, é totalmente contrário ao evangelho ensinado por Cristo.

É necessário ter cautela para saber discernir entre os evangélicos e os discípulos de Cristo.

Um discípulo perdoa e aceita seu semelhante porque sabe que também foi perdoado e aceito por Cristo, sem nada merecer.

Um discípulo de Cristo vai ser guiado pelo amor que recebeu do Mestre, e não pelo poder e sua sedução.

Um discípulo vai posicionar-se em favor do oprimido e não do opressor.

Um discípulo vai transbordar amor porque ele foi alvo de um amor maior, e sua resposta ao mundo não pode ser outra senão o serviço amoroso ao próximo.

Assim sendo, quando você ver e ouvir sobre as loucuras dos evangélicos, saiba que há um grupo de discípulos de Cristo que não concorda e não apoia os evangélicos deste país.

Há que se saber separar quem são os evangélicos e quem são os discípulos.

 

Texto de Lia Silva (baseado na aula aberta ministrada por Ariovaldo Ramos em 02/09/2002)