segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tricotando memórias, desmanchando excessos e reaprendendo a ter paciência comigo mesma

Depois de décadas de afastamento, este ano eu voltei a tricotar.

Aprendi o ofício com a minha avó, durante as tardes geladas do inverno gaúcho que passávamos juntas ao redor do fogão a lenha. À época, eu ainda era uma criança e a atividade não passava de um desafio divertido. Lembro-me perfeitamente de vê-la contando os pontos na agulha de dois em dois, enquanto eu me perguntava: "como ela consegue contar pulando os números?". Sem que eu percebesse, ela também ensinava matemática à sua neta mais velha.
Há alguns meses, meu pensamento parecia fixado nela. Sonhei muitas noites seguidas com a sua presença. Movida pela saudade, resolvi testar minha memória e resgatar o nosso tricotar. Para a minha surpresa, descobri que minhas mãos ainda lembravam dos movimentos que ela me ensinou. O que começou como uma forma de acolher a nostalgia virou um hobby e, logo em seguida, um espelho para a vida.
Em uma sessão de terapia, comentei com a minha analista sobre a alegria recém-descoberta. Expliquei que ainda estava reaprendendo o ritmo: alguns pontos ficavam muito apertados, outros muito soltos, correndo o risco de comprometer o resultado final. Foi a partir dessa fala que um profundo processo de autoconhecimento começou.
Minha analista me fez perceber o quanto o ato de tricotar estava conectado com o meu momento atual, com as minhas tentativas de lidar com as dores, com os traumas, com a minha rigidez e com os meus "não-sei" — aceitando que está tudo bem não saber tudo. Reaprender a tricotar transformou-se em aprender a lidar comigo mesma. Tecer uma peça tornou-se o equivalente a acolher a minha própria história.
A foto que acompanha este texto mostra minhas tentativas de confeccionar uma meia — justamente a peça que a minha avó fazia para presentear os netos. Olhando para ela, vejo um rastro de tentativas e erros até chegar a um modelo final mais próximo da realidade. Da primeira tentativa ao modelo final, cada meia carrega um erro, um acerto e muita coragem.
Precisei recomeçar do zero inúmeras vezes. Todo o trabalho de construção que não ficava bom era desfeito. Enfrentei o desafio de acertar a quantidade ideal de pontos, a escolha do desenho, a combinação das cores e o improviso quando o fio acabava sem um novelo igual para repor. Vivenciei o ponto apertado, o ponto frouxo e o ponto que escapou da agulha e sumiu, o que me obrigou a reiniciar o trabalho.
Por enquanto, o resultado final ainda não está
perfeito aos meus olhos. Sei que posso evoluir, mas já aceito que nunca alcançarei a perfeição, simplesmente porque ela não existe. O que existe é o que posso fazer hoje, o que dou conta de entregar e o que posso aprender para o amanhã.
No fim das contas, minha avó não me ensinou apenas a cruzar fios de lã. Ela abriu caminhos para que eu tivesse uma compreensão muito maior de mim mesma e das escolhas que faço diariamente. Já não sinto frustração ao ter que recomeçar. Afinal, a vida de todo mundo é feita desses ciclos, embora nem todos consigam perceber.
João Guimarães Rosa foi preciso quando escreveu em Grande Sertão: Veredas: “O que a vida quer da gente é coragem!”
Enquanto tricoto a minha própria trajetória, vou reconhecendo as minhas coragens. É certo que vou errar em algumas fileiras, mas o verdadeiro valor reside na resiliência, na insistência e na capacidade de tentar de novo. Até que tenhamos vivido o melhor que podíamos com aquilo que a vida nos ofertou.

Lia Silva 
20 de julho de 2026.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Celebrar um gol em um mundo em guerra, é alienação ou sobrevivência psíquica?

 

A Copa do Mundo não é apenas sobre futebol; ela funciona como um espelho e um amortecedor para as angústias de um mundo fraturado por guerras e polarizações. Em momentos de dor coletiva, o esporte opera como uma das poucas ferramentas capazes de canalizar afetos violentos e devolver o direito à alegria para populações historicamente sofridas.

Enquanto que o mundo real – guerras, polarização e ódio – produz uma frustração sem destino, a Copa oferece uma forma de canalizar a agressividade, com catarse, ritual e sublimação.

Para compreender o fenômeno das massas durante a Copa do Mundo, a psicanálise oferece duas chaves de leitura essenciais:

  • Sublimação: Mecanismo que transforma pulsões destrutivas em atividades socialmente aceitas e produtivas.
  • Mal-estar na Civilização: A renúncia que o sujeito faz de seus instintos violentos para viver em sociedade, gerando uma frustração constante.

Sigmund Freud, em sua obra clássica O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a vida em sociedade exige o controle das nossas pulsões agressivas. O futebol funciona como uma arena ritualística onde essa agressividade reprimida pode ser descarregada de forma segura e simbólica.

"A substituição do poder do indivíduo pelo poder da comunidade é o passo decisivo da civilização." — Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização.

Christian Dunker, psicanalista brasileiro contemporâneo, discute exaustivamente as lógicas de condomínio e a polarização social. Ele explica como os grandes rituais coletivos ajudam a refazer laços em sociedades fragmentadas pelo ódio político.

Em um cenário global marcado por trincheiras ideológicas e conflitos armados, a Copa do Mundo altera temporariamente a dinâmica das fronteiras. Ela cria o que o antropólogo Victor Turner chamava de communitas: um estado de igualdade e comunhão que suspende temporariamente as hierarquias e divisões do dia a dia.

Isso quer dizer que o rival vira adversário: no campo de jogo, o "outro" deixa de ser um inimigo a ser aniquilado (lógica da guerra) e passa a ser um oponente a ser superado sob regras rígidas comuns (lógica do esporte).

Para quem enfrenta a dureza da fome, do desemprego ou do medo da violência, a celebração de um gol não é alienação; é sobrevivência psíquica. A alegria coletiva reconecta o indivíduo à sua dignidade e ao sentimento de pertencimento.

Há algumas referências artísticas que traduzem o poder do futebol no imaginário popular.

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade compreendia o futebol como uma crônica da própria vida. No poema O Torcedor, ele ilustra essa suspensão da realidade:

"O torcedor esquece a própria dor e projeta-se na dor e na glória do seu clube. Ali ele é gigante, ali ele é feliz."

A música de Gonzaguinha - O Que É, O Que É? – é perfeita para ilustrar a resiliência de um povo sofrido que escolhe celebrar.

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...

E a vida o que é, meu irmão?

...É a batida de um coração

É a doce ilusão."

Chico Buarque também escreveu ‘O Futebol’ para mostrar a beleza estética e o alívio que o jogo traz.

"Para essa pelada que joga a lenda

Se essa bola é pele, se essa bola é prenda

Se essa bola é vida."

Lia Silva - junho de 2026



FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

DUNKER, Christian. A Reinvenção do Espaço Público: Política e Psicanálise no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2022.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. Rio de Janeiro: Record, 2002.

TURNER, Victor. O Processo Ritual: Estrutura e Anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974 (Conceito de Communitas).

quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Ver a vida acontecer como um dia de domingo"

Há uma canção linda, imortalizada na voz inesquecível de Gal Costa, que enaltece o domingo. O trecho da canção diz assim: “ver a vida acontecer como um dia de domingo".

Que significado oculto há por trás dessa fantasia do dia de domingo? Fica claro que o domingo vai muito além de uma simples folha no calendário ou de um descanso na rotina.

Para a psicanálise, o domingo funciona como uma verdadeira fresta temporal por onde o nosso inconsciente consegue escapar. Durante a semana, nossa mente é governada pelo que Freud chamou de "Princípio da Realidade", um estado em que somos esmagados pela produtividade, pelos horários rígidos e pelas exigências sociais.

Quando o domingo chega, essa lógica da utilidade é finalmente suspensa, abrindo espaço para o "Princípio do Prazer", onde o tempo cronológico perde o poder absoluto e o desejo puro pode finalmente falar mais alto.

É por essa razão que a canção repete, de forma quase hipnótica e obsessiva, a frase "faz de conta que ainda é cedo". Esse verso funciona como um clássico mecanismo de negação inconsciente, uma recusa saudável do tempo linear que tenta afastar a iminência da segunda-feira e o retorno inevitável das obrigações do mundo real.

O inconsciente, afinal, é atemporal; ele não reconhece o relógio e deseja apenas a eternidade daquele instante de satisfação. Sob essa atmosfera de suspensão, a busca descrita na letra por "respirar o mesmo ar" e "ter na pele o mesmo sol" reflete uma profunda fantasia de simbiose amorosa, um desejo psíquico de fusão total com o outro que remete ao acolhimento e à plenitude da nossa infância mais primeva.

Essa quebra das amarras cotidianas explica por que o domingo é o dia mais poetizado da nossa cultura. Como a censura interna diminui e as defesas do ego relaxam, os sentimentos reprimidos ganham passagem livre para emergir.

A poesia e o inconsciente dividem a mesma matéria-prima — a metáfora e a linguagem dos afetos —, transformando o domingo no cenário perfeito para a vida "acontecer" de verdade, guiada pela emoção e pela voz do coração.

Mesmo a melancolia que costuma invadir o fim de tarde desse dia nada mais é do que a expressão da nossa falta constituinte, aquela saudade de uma totalidade impossível. Assim, escrever e cantar sobre o domingo torna-se uma forma de traduzir o invisível, criando uma narrativa poética indispensável para suportarmos o retorno à realidade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Paz que Escolhi

Houve um tempo — longo demais, confesso — em que eu gastava meus dias tentando construir pontes. 

Eu acreditava que, com as palavras certas e o tom exato, conseguiríamos chegar a um lugar comum, onde o entendimento fosse bom para ambos os lados.

Mas, pouco a pouco, percebi que minhas tentativas de compreensão eram engolidas pelo ruído. 

Onde eu buscava harmonia, o outro só buscava o ringue.

O amadurecimento me trouxe uma lucidez silenciosa: existem almas que se alimentam do conflito. 

São viciadas no embate pelo prazer do atrito, sem nenhuma intenção de aprender ou de encontrar o meio termo. Para essas pessoas, a vitória não é o consenso, é o desgaste alheio.

Foi então que desisti.

Não por cansaço, mas por escolha.

Sou feita de paz.

E hoje, não gasto um suspiro sequer com quem faz da discórdia o seu lar. 

Diante do vício de quem ama a briga, eu ofereço o meu silêncio e o meu distanciamento. 

Vivo melhor assim, sem batalhas inúteis para lutar.

No fim das contas, aprendi a lição mais preciosa de todas: eu prefiro ter paz do que ter razão.

Muitas vezes, a nossa paz depende de uma única palavra que deixamos de dizer. Você já sentiu a liberdade de desistir de uma discussão que não era sua?


Lia Silva 
Fev. 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Do filme Dança Comigo?

Há uma cena simples e profunda no filme Dança Comigo? que passa quase despercebida em meio à leveza da dança.

A esposa, interpretada por Susan Sarandon, desconfiada de que o marido (Richard Gere) possa estar traindo-a, contrata um detetive. A esposa e o detetive se encontram num bar. Não há lágrimas dramáticas, apenas cansaço e lucidez. Ela não fala sobre traição. Ela fala sobre solidão. Diz que existem bilhões de pessoas no mundo e que, sozinha, uma vida parece pequena demais. Quase invisível. Mas que, quando duas pessoas se comprometem, é como se dissessem uma à outra: “Eu vou prestar atenção em você. Eu vou te notar. Sua vida não vai passar despercebida, porque eu estou aqui para vê-la.”

Não é posse. Não é controle. É testemunho. Essa fala tocou algo muito profundo em mim, pois fala de um olhar que nos faz existir. Desde o início da vida, aprendemos quem somos no olhar de alguém. O bebê descobre que é real quando alguém o segura, o chama pelo nome, responde ao seu choro. Sem esse olhar, o mundo vira vazio. A alma se sente transparente. Precisamos ser vistos. Não vistos como desempenho ou aparência, mas vistos como presença: “eu reconheço você, eu me importo com sua história.” No fundo, todo afeto humano carrega essa pergunta silenciosa: “Você me enxerga?”

O Evangelho é o olhar de Deus. O Evangelho nos diz que ninguém vive sem testemunha. Antes mesmo de qualquer relação humana, existe um Deus que vê. Um Deus que conta os fios de cabelo, que chama pelo nome, que percebe a lágrima secreta. Um Deus que, em Jesus, para diante de pessoas invisíveis e diz: “Eu te vi.” Foi assim com Zaqueu na árvore; com a mulher junto ao poço; com o cego à beira do caminho.

O milagre começa quando alguém é notado. É como se Deus dissesse continuamente: “Sua vida não é acidental. Eu estou te olhando. Você importa.”

A cena do filme fala de casamento, mas a verdade é maior do que isso. Toda amizade profunda, todo gesto de cuidado, toda escuta paciente repete o mesmo sacramento cotidiano: quando você se senta ao lado de alguém em sofrimento, quando pergunta “como você está?” e realmente espera a resposta, quando guarda a memória da história de alguém — você se torna testemunha daquela vida.

E isso é amor. É assim que a Igreja precisa ser: uma comunidade que vê, acolhe e ama a todos, sem distinção.

Amar é dizer: “Você não vai atravessar o mundo sozinho.” “Eu vejo você.” “Eu fico.” Talvez seja isso que nos salve da invisibilidade: sermos, uns para os outros, pequenos reflexos do olhar fiel de Deus. Porque, no fim, existir é isso: ter alguém que testemunhe que passamos por aqui.


Lia Silva
30 de janeiro de 2026

A força que nasce da vulnerabilidade

Vivemos em uma cultura que valoriza a força, a autonomia e o desempenho. Espera-se que as pessoas estejam sempre bem, produtivas e emocionalmente resolvidas. Nesse cenário, a vulnerabilidade costuma ser interpretada como fraqueza ou falha moral. O Evangelho, porém, oferece uma inversão profunda dessa lógica: nele, a fragilidade não é obstáculo à experiência de Deus, mas lugar privilegiado de encontro.

Jesus inicia o Sermão da Montanha com uma afirmação desconcertante: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5:3). Longe de glorificar a miséria, essa bem-aventurança aponta para uma atitude interior de abertura. Os pobres em espírito são aqueles que reconhecem seus limites e não se apoiam na ilusão da autossuficiência.

Paul Tillich observa que a fé nasce justamente quando o ser humano se confronta com sua finitude e, ainda assim, encontra coragem para existir. O Reino, portanto, não é conquista dos fortes, mas dom oferecido aos que reconhecem sua própria falta.

Os Evangelhos apresentam um Jesus profundamente humano. Ele chora a morte de Lázaro (Jo 11:35), sente compaixão das multidões cansadas e expressa angústia diante da morte. No Getsêmani, sua oração revela medo e desejo de escapar do sofrimento: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Lc 22:42).

Essa cena é teologicamente decisiva. Jesus não nega sua vulnerabilidade para obedecer a Deus; ele a expressa. Jürgen Moltmann interpreta a cruz como revelação de um Deus que sofre com a humanidade e se solidariza com a dor do mundo. A vulnerabilidade, assim, não é apenas humana, mas também teológica.

A leitura minuciosa dos Evangelhos mostra que a cruz não deve ser lida como glorificação do sofrimento. Ela denuncia sistemas religiosos, políticos e sociais que produzem morte e exclusão. O grito de Jesus — “Meu Deus, por que me abandonaste?” ) — não indica ausência de fé, mas expressa o desamparo vivido por tantos corpos vulneráveis ao longo da história.

Dorothee Sölle lê esse clamor como protesto e solidariedade com os que sofrem. Deus não deseja a cruz, mas está presente onde a vida é violentada.

A psicanálise oferece importantes chaves de leitura para esse tema. Freud e Lacan afirmam que o sujeito humano é constituído pela falta; não há completude possível. Grande parte do sofrimento psíquico nasce da tentativa de negar essa condição. Donald Winnicott acrescenta que o amadurecimento emocional só é possível em um “ambiente suficientemente bom”, onde a fragilidade possa ser acolhida. Quando não há espaço para a vulnerabilidade, o sujeito constrói defesas rígidas, afastando-se de si mesmo. O Evangelho, ao reunir pessoas feridas em torno da mesa, antecipa essa intuição: a cura passa pela relação, não pela perfeição.

O Cristo ressuscitado não retorna com um corpo idealizado. Ele conserva as marcas da cruz e as mostra aos discípulos. A ressurreição não apaga a história; ela a transforma. Também na psicanálise, elaborar o sofrimento não significa esquecê-lo, mas integrá-lo de modo menos destrutivo. As feridas permanecem, mas deixam de definir totalmente a existência.

Se a vulnerabilidade também é lugar de vida, a comunidade espiritual deveria ser espaço seguro para a fragilidade humana. Uma religião que exige força constante e certezas absolutas acaba reproduzindo a lógica excludente que o Evangelho questiona.

Jesus nunca chamou pessoas prontas. Ele chamou pessoas reais. A fé, à luz do Evangelho, não se mede pela ausência de dor ou dúvida, mas pela capacidade de permanecer em relação — com Deus, com o outro e consigo mesmo — mesmo quando a falta se impõe.

Assumir a vulnerabilidade não é sinal de fracasso, mas gesto de honestidade existencial. É reconhecer que a força que sustenta a vida não nasce do controle, mas da relação. Como escreve o apóstolo Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12:10). Não porque a fraqueza seja idealizada, mas porque nela se abre espaço para a graça, o cuidado e a comunhão.

Lia Silva 
02 de fevereiro de 2026

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida – Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

TILLICH, Paul. A coragem de ser. São Paulo: Paz e Terra, 1976.

MOLTMANN, Jürgen. O Deus Crucificado. Santo André: Academia Cristã, 2011.

SÖLLE, Dorothee. O sofrimento. Petrópolis: Vozes, 1979.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: ______. Obras completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Somos quem NÃO somos

Não somos apenas o que pensamos, falamos ou escrevemos,

Não somos apenas o que pregamos para o outro.

Somos também o que não dizemos,

a palavra que falta no vocabulário,

somos também aquilo que fazemos fora do olhar de outrem,

Somos também as atitudes que ninguém nunca viu,

somos também o choro que só o travesseiro enxuga,

somos também a palavra que não sai no meio de uma discussão,

somos também o que lutamos para esconder,

Somos o nó na garganta,

o grito abafado no peito,

o verso nunca transcrito no papel,

o pedido de perdão,

os nãos e os sins que só dizemos olhando pro espelho.

Somos a marcha ré dada na contra mão,

somos o inverso que ninguém repara,

o buraco numa costura impecável,

somos o que poucos veem a olho nu.

Somos o que somos dentro do nosso pijama,

quando despimos nossa armadura de forte pra contemplar o sono,

ou a insônia.

Somos a face amanhecida na quentura do leito,

somos apenas um corpo buscando certezas para encarar a rotina e,

com maestria,

revestimos nossa pele com o que queremos realmente ser.

E nem somos, mas sempre tentamos.

 

26/01/2025 - (Por Ju Fuzetto – adaptado por Lia Silva)

 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Promessa

 
Anoiteceu aqui no pé das montanhas majestosas da Mata Atlântica. 

Há sombras e penumbra ao longo da estrada. 

Há nevoeiro e chuva fina.

Faróis velozes rasgam a escuridão.

E então a lembrança daquele abraço 

lampejou em minha memória

E a minha alma sorriu. 

E a escuridão já não é tão escura. 

"As árvores bateram palmas",

E o nevoeiro sorriu tímido entre os faróis que lhe atravessam.


Lia Silva 

21/12/2024 - em viagem pelo sul do Brasil


Os cinco sentidos

Com a maciez do gramado sob os pés,

Com a melodia suave dos pássaros seduzindo o coração,

Com o sol aquecendo cada centímetro de pele,

Com a beleza exuberante da natureza enchendo os olhos,

Em meio ao perfume exótico das flores e da diversidade das plantas,

Um gosto de extravagante simplicidade se espalha pelo paladar da alma.

Entre a meditação contemplativa e a roupa coberta de folhas secas,

Eis que surge um momento etéreo,

Inesperado ...

Irresistível ...

E um beijo inocente torna-se o ponto alto

De uma manhã que já se tornara inesquecível.  


Lia Silva 

08/01/2025

Foto: Jardim Botânico Plantarum - Nova Odessa, SP

domingo, 1 de dezembro de 2024

Óh, dor!

 Óh, dor! 

Tu que ardes de dentro para fora,

E queimas minhas esperanças,

E varre meu futuro para longe.

Óh, dor! 

Tu que tinges de cinza o sonho,

E duvidas da alegria,

Tu que me banhas em lágrimas,

E engordas o meu pranto.

Óh, dor! 

Tu que chegas sorrateira,

Invades a alma,

Expandes os limites do coração

Com teus espinhos atrozes,

Quais garras sangrentas.

Óh, dor! 

Tu que apagas minha luz interior,

Que encobres com tuas sombras

Cada cantinho da alma,

E me faz duvidar que mereço ser feliz.

Óh, dor! 

Óh, dor! 

Óh, dor! 



Lia Silva 
Novembro de 2024


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Tempo, tempo, tempo...

Nesta foto, vemos a representação de Cronos - o deus do tempo.

Neste dia, eu puxei-lhe as barbas em protesto à velocidade que ele imprime em minha história.

Hoje completo 45 anos, mas não sei ao certo se foi rápido ou tem sido lento. 

Não há precisão quando falamos dele, porque ele é sentido e experimentado de forma única e pessoal em diferentes tempos da vida.

Ao olhar para trás, tenho percepções diferentes de quem fui e de quem sou hoje.

Em cada estação da vida havia uma Lia diferente, uma Lia tentando dar conta daquele momento.

Hoje sei que não posso ser definida.

Sou quem consigo ser em cada ocasião.

Nem sempre gosto de quem sou.

Outras vezes, apaixono-me por mim e ganho novos ares, respiro e sigo para o futuro...

Esse deus não dá conta de mim. Eu é que tenho tentado dar conta dele, usufruindo dos momentos com intensidade.

Aos poucos, fui me tornando amiga do tempo e aproveitando-me dele para ser uma pessoa melhor.

A consciência foi sendo expandida no relacionamento com o Deus mais pessoal, mais íntimo, mais presente, mais amoroso, mais aconchegante.

Penso que minha maior conquista ao longo dos anos de vida foi ganhar a expansão da consciência para viver do Deus-vivo, aquelE que desfez os nós religiosos que me amarraram a uma existência curta, rasa e cheia de culpas.

Reconheço minha identidade de filha dEle e isso me basta.

Nele, em quem não há sombra de variação, O único que era, que É e para sempre será, Naquele que criou o tempo e em quem me sustento
.


Lia Silva - 30 de julho de 2024 - 45 anos aprendendo a ser eu. 

terça-feira, 5 de março de 2024

O Vazio

"Somos seres desejantes, destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar" — Jacques Lacan

Quando aceitamos nossas limitações e deixamos de encará-las como um problema emocional, pacificamos nossa relação conosco mesmos. 
Nosso grande erro é tentar tapar essa falta interior, esse buraco estrutural na alma, com a presença de outra pessoa. 
Essa solidão nos constitui; nenhum par romântico pode eliminá-la. 
Não existe alma gêmea. 
Não existe tampa da panela. 
Relacionamentos saudáveis são construções diárias entre duas pessoas inteiramente cientes de suas próprias falhas.
Fomos ensinados pela cultura — músicas, filmes, novelas — a crer que o amor é uma mágica que anula o vazio.
Ilusão.
Passamos a vida correndo para saciar desejos, buscando fora o que nos falta por dentro. Para amadurecer, precisamos acolher nossa própria falta.
No entanto, aceitar a incompletude não significa caminhar em isolamento absoluto ou bastar-se a si mesmo. 
Na psicanálise, o sujeito só se constitui através do Outro. É nesse horizonte que a nossa fala nasce, o nosso desejo ganha nome e a nossa existência se torna possível. O Outro não é uma dependência neurótica nem uma necessidade de amparo, mas o lugar sagrado da alteridade.
Há, de fato, uma dimensão de transcendência nesse vazio que carregamos. Mas essa força sutil, esse Absoluto que nos habita, não serve para anular o mundo ou nos isolar em uma autossuficiência divina. 
Pelo contrário: a verdadeira transcendência analítica é aquela que nos empurra para fora de nós mesmos. Ela se manifesta justamente no mistério do encontro.

Não buscamos o Outro para preencher o buraco da alma, mas porque é na fenda da nossa própria incompletude que o amor se torna um ato de fé no semelhante. 
O Outro importa porque ele é o espelho do inacessível. Amar é o gesto transcendente de suportar o próprio vazio para dar espaço ao mistério de quem o outro é.


Lia Silva - julho de 2022 - revisado em 14/07/2026


Somos Todos Errados!

O erro iguala os seres humanos, uma vez que todos nós erramos.

O que difere um indivíduo do outro é a forma como cada um lida com seus erros.

Os sábios reconhecem seus erros, admitem seus deslizes, conhecem seus limites e não tem medo de olhar para si mesmos a fim de retratarem-se e mudar de postura, crescer, evoluir, amadurecer.

Os incautos não reconhecem seus erros, recusam olhar para dentro e admitir suas fraquezas e deslizes. Seguem na vida acusando e culpando outros por seus erros. São arrogantes, orgulhosos, intratáveis e não evoluem.

Por isso Jesus nos convidou a andar com ele e imitá-lo. 

Quanto mais parecidos com ele nos tornamos, melhores seres humanos seremos. 

Não porque deixamos de errar, mas porque aprendemos a pedir perdão, a perdoar e melhorar a nós mesmos e aos nossos relacionamentos interpessoais. 


Lia Silva, abril de 2023

Páscoa

Na sexta-feira tem abandono, tem traição, tem tortura, tem dor, tem crucificação, tem morte.

No sábado tem o silêncio da sepultura, tem angústia, tem incerteza, tem escuridão de tumba. 

No domingo tem ressurreição, tem vida, tem recomeço, tem alegria, tem esperança.

Há que haver morte para que haja ressurreição.

Há que haver o silêncio do sepultamento para que renasça a manhã da nova vida. 

Há que haver esperança de que tudo tem seu tempo certo para acontecer. 

Deixe morrer em você o que precisa morrer.

Respeite o silêncio do sepultamento de suas dores e do passado.

Vibre e reviva com a alegria da ressurreição! 

O Domingo está chegando ... há esperança!


Lia Silva - Páscoa de 2023

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

 Ela foi mais uma dessas jovens noivas iludidas pela paixão. Naquele 30 de janeiro ela tinha 19 anos e meio. Era a própria Cinderela em seu momento de glória.

Seguindo o fluxo poderoso e impulsivo de todo jovem, ela também acreditava, de todo o coração, que poderia ‘mudar o mundo com seus moinhos de vento’. Tinha em si todos os sonhos, todas as certezas, toda a confiança que lhe fez encarar o desconhecido, a terra distante, o povo diferente. Ela carregava em seu jovem coração uma fantasia cheia de fé e grandezas.

Longe de casa, da família, dos amigos, dos costumes, da rotina, ela encarou um casamento com um estranho, alguém com quem – ela logo descobriu – não havia afinidade, sintonia, vínculo. Viviam em um lar comunitário entre missionários e sonhadores da fé alheia. Extasiada em sua fantasia que, embora desconhecida, era esperada, sorriu e chorou, aprendeu e desaprendeu, caiu e levantou-se, olhou para fora de si mesma pela primeira vez. Quando tornou a olhar para si, não gostou do que viu.

Viu os sonhos se desfazerem. O futuro, que parecia mais próximo, extinguiu-se languidamente. As ilusões se desfizeram. A fantasia tornou-se pesadelo. No ápice de seus 23 anos, viu-se ainda jovem, mas sozinha. O divórcio prematuro trouxe-lhe uma liberdade desconhecida. Em nova terra desconhecia, entre nova gente desconhecia, sem sonhos, sem desejos, sem ter para onde ir. O divórcio arrancara-lhe de vez a fantasia missionária.

Não perdeu a fé, mas não soube o que fazer com ela. Passou a viver um dia de cada vez. Sem fantasias, sem sonhos para perseguir, deixou-se ser levada pela vida. ‘Vida leva eu.’ Apaixonou-se novamente e desta vez pensou ser correspondida. Logo percebeu estar novamente enganada. Descobriu que a estrada do amor quase sempre é uma via de mão única.

Aos 30 anos, já na hora de ganhar maturidade, viu-se mais uma vez na estrada do amor e, desta vez, pensou estar em mão dupla. Tornou-se mãe. Cresceu. As fantasias eram recordações do passado. A maternidade levou-a a uma nova dimensão de amor e isso serviu para mostrar-lhe que a estrada do amor nunca é solitária, mas a do romance pode ser. Quase sempre é.

Vinte e cinco anos depois daquele 30 de janeiro, ela já não é uma jovenzinha sonhadora. O noivo que se casou com aquela jovem noiva já não está deste lado da vida. A noiva que já foi uma jovem sonhadora ainda sofre de ilusões fantasiosas. Não desistiu de esperar companhia na estrada do amor. Segue amando como consegue, tenta servir quem encontra pelo caminho, segue tendo fé (in)suficiente só pra hoje, sem sonhos megalomaníacos de querer salvar o mundo, basta a cada dia se deixar ser salva de si mesma e de seus delírios fantasiosos. A mulher de 44 tenta desesperadamente permanecer com os pés firmes no chão, com o coração teimosamente querendo descansar em quem pode, de fato, salvá-la. Com os pés no chão e os olhos na cruz, ela segue confiando que há um futuro com o qual sonhar e que esse sonho não é ilusão. É uma mania que ela tem: ter fé nos sonhos. Mesmo naqueles que nem os jovens cheios de força e desejo conseguem realizar.



Lia Silva
30/01/2024

Graça, escandalosa graça

 A Graça é escandalosa.

Fundamentalistas ficam desconcertados diante dela e só conseguem negá-la e atacar seus arautos.


 A Graça escandaliza porque oferece ao pecador aquilo que a meritocracia e a lógica humana não reconhecem.

É difícil aceitar de graça aquilo que a religião ensina que precisa ser conquistado pelo auto sacrifício.


Todo sacrifício necessário para nossa salvação foi cobrado de Cristo. Ele pagou.


Para nós, a salvação é pura Graça.


Lia Silva
Fev 2023

A dignidade da vida humana

A história da criação do mundo é a história da invenção da vida.
O “haja” do Criador estabeleceu a vida no Planeta Terra.
O ser humano foi criado e nele o Divino soprou vida.
Mas, a criatura não quis viver em paz com seu Criador. Almejou ser como o Criador, ser seu próprio deus e, assim, perdeu o direito à vida.
Não disposto a criar robôs servis, o Criador ofereceu autonomia e liberdade às suas criaturas, mesmo sabendo que a criatura usaria tal liberdade para rebelar-se contra Ele.
Imediatamente, “antes da fundação do mundo”, o Criador resolve esse impasse e entrega-se para morrer a morte no lugar da criatura rebelde.
Em Cristo, Deus veio ensinar que Ele é o doador e o mantenedor da vida. “Nele nós somos, nos movemos e existimos”, “sem Ele, nada do que foi feito, se fez”. Ele ensinou: “eu vim para que vocês tenham vida e vida em abundância”, “Ele nos resgatou da morte para a vida”.
Nesta perspectiva, tudo aquilo que atenta contra a vida e sua dignidade, atenta contra o Criador, ou seja, é pecado. Pecado deixa de ser um mero comportamento moral e passa a ser uma ruptura na essência do ser humano.
Quando decidimos pela vida e nos dedicamos a preservar sua dignidade, estamos, finalmente, fazendo a vontade de Deus, o Criador.
Qualquer atentado à dignidade da própria vida e à vida do outro precisa ser combatido. Zelar pela dignidade da vida humana é o que nos torna mais parecidos com Cristo.
Olhando para a história de vida dEle enquanto esteve entre nós, percebemos que todas as suas atitudes e serviço foram em prol da dignidade da vida humana.
Queremos ser humanos melhores?
Então precisamos nos 'cristificar' e nos tornarmos mais e mais humanos, resgatando toda a dignidade na vida daqueles que nos cercam.
Lia Silva - 26/02/2024

sábado, 4 de dezembro de 2021

Um relato tenso

Os três últimos dias foram de uma anormalidade sem precedentes em minha vida.

Momentos de terror e pacificação nunca experimentados antes.

Na noite de quinta-feira, meu filho e eu fomos participar de um jantar com amigos do coração e chegamos em casa por volta das 22h00. Ao parar na frente de casa para entrar no estacionamento, meu filho desceu para abrir o portão e, no mesmo instante, um carro apareceu das sombras e parou bruscamente atrás de mim. 

Fui rendida por 3 indivíduos, um deles armado, que me empurraram para dentro do portão que meu filho abria. Assustado, sem entender o que acontecia, ele gritou pelo nome da dona da casa que mora em frente à casa onde estamos morando. Ela apareceu e imediatamente foi também rendida. Nós três fomos empurrados para dentro da casa dela e colocados no quarto. Um dos indivíduos ficou na porta do quarto apontando a arma para nós enquanto os dois vasculhavam a casa da minha senhoria e levavam para o meu carro o que achavam que era de valor.

Foram uns 20 minutos de muito medo, vulnerabilidade, impotência e consciência da instabilidade da vida. Enquanto eu estava sentada olhando para aquela arma apontada, pensei que, a alguns minutos atrás eu estava sentada em uma roda com gente amada, rindo, conversando, comendo, comungando, e agora estava em uma situação tão surreal que parecia ficção.

Enquanto a dona da casa chorava muito e falava com preocupação sobre seus gatos que haviam fugido porque a porta ficara aberta, meu filho levantava a mão pedindo permissão ao indivíduo armado na porta do quarto para ir ao banheiro: “Agora não, moleque! Segura aí e fica quieto!”, foi a resposta firme.

Estranhamente, eu não entrei em pânico. Sentia medo pelos desdobramentos que eu sabia que aquilo poderia ter, mas preferi manter minha mente em conexão com Aquele que me conhece e cuida de mim. Mentalmente fiquei pedindo ao meu Pai por proteção e para que tudo acabasse bem.

Enfim, eles se deram por satisfeitos e foram embora levando meu carro, meu celular e muitos, muitos pertences da casa de minha senhoria. Deixaram o portão aberto e sem o cadeado, decerto na esperança de voltar mais tarde para levar a moto da outra inquilina que mora no mesmo terreno.

Chegara a hora de agir, era o momento de deixarmos de ser passivas. Chamamos os vizinhos, a polícia e eu fui com o carro da senhoria para uma delegacia prestar queixa. Foi quando eu cheguei lá que minha aparente calma terminou. Senti no corpo os efeitos da tensão com tremores, dores no estômago e boca seca; sentia vontade de chorar convulsivamente, mas não consegui.

Auxiliada pelos policiais, logo me recompus e eles me escoltaram até em casa com mais umas 4 ou 5 viaturas. Os vizinhos chegaram e os policiais ficaram em frente à nossa casa tentando rastrear meu celular para reaver o carro e os pertences da vizinha até mais de 3 horas da manhã. Ao ver os rostos de alguns meliantes no sistema da Polícia, conseguimos reconhecer o líder deles, que provavelmente era o único adulto entre os 3. Os outros 2 certamente eram menores – um deles sequer tirou a toca e máscara e só conseguimos ver seus olhos sombrios.

Não houve sono para nenhum de nós 3 naquela noite. A sexta-feira amanheceu e eu precisei ir resolver os problemas práticos da noite de ação. Cancelamento de cartões e contas, cancelamento de celular, acionar seguro do carro, ir à delegacia civil fazer o BO e etc.
A sexta-feira chegou ao fim bem sucedida. Consegui reaver meu número com outro chip e outro aparelho; consegui resolver o problema dos cartões e também pegar o carro extra na seguradora.

Enfim, tudo solucionado, corpo exausto, mente agitada, emoções em frangalho.

Chazinho de melissa e cama. Meu filho e eu dormimos, enfim. Até sermos acordados às 00:10 pelo telefone. Diziam ser da polícia militar e que estavam com meu carro. Eu deveria ir até uma comunidade carente em uma cidade próxima daqui porque o carro estava abandonado na rua.

E o medo de sair no portão 24h depois de ter sido abordada?

E se não fosse a polícia, mas um trote para uma emboscada?

Escoltada pelo pai do meu filho, fomos até o local e verificamos que era de fato a polícia e meu carro fora abandonado praticamente no meio da rua depois de terem assaltando outro veículo que transitava por ali. Os policias contaram que meu carro havia sido usado em pelo menos mais 3 assaltos e um deles tinha sido filmado.

Os policias nos escoltaram até a delegacia civil mais próxima onde um novo BO foi feito.

O carro estava inteiro, sem dano algum, com meio tanque de gasolina e muito sujo, com cheiro muito forte de fumaça. Escoltada até em casa novamente, já passava das 3h da manhã quando finalmente conseguimos dormir, sem, contudo, conseguir relaxar.

Nossas vidas foram poupadas. Não houve um desfecho trágico. Minha senhoria, mais do que eu, perdeu muitos bens materiais. Mas as sequelas emocionais estão muito vivas. Difícil andar na rua sem ter a sensação de estar sendo seguida; difícil sair no portão e não reviver o momento da abordagem. Entendo que não houve violência física contra nenhum de nós, no entanto, a situação em si é de uma violência emocional doentia. O medo de que possa acontecer de novo pode nos manter reféns. Ouvir um carro passando na frente da casa nos faz correr e esconder, mesmo sem saber do que se trata.

Meu filho, que está com 11 anos, fez o seguinte questionamento: “o que leva esses meninos a fazerem esse tipo de escolha na vida? Eles não sabem que isso não tem um futuro?”

Eu não sei responder pelas escolhas– ou falta delas – dos outros, mas sei que preciso escolher viver depois desse trauma. Viver com plenitude. Minha fé em Quem cuida de mim, precisa superar meus medos. Não sei explicar o porquê dos acontecimentos, mas sei que não estávamos sozinhos naquele quarto quando uma arma nos era apontada. Entendo que minha calma naquele momento se deu porque eu estava confiante em quem estava cuidando de nossa vida. A presença dEle é que me trouxe consolo e tranquilidade, mesmo sob a mira de uma arma.

Os anéis se foram. Os dedos ficaram.

Temos vida para seguir nessa luta proletária e para repor o que nos foi tirado. Há aqueles que passam por situações semelhantes que, sem muito esforço, conseguem repor os bens levados. Não nós. Lutamos e trabalhamos MUITO para ter o que temos e que nos é tomado em segundos. Os sentimentos de injustiça e de impotência diante da inevitável, dura e doentia realidade quer nos arrancar a esperança.

Sinto que preciso de um exercício de fé para manter acessa a chama de uma esperança. Não a esperança na humanidade, muito menos a esperança na justiça. Mas a Esperança da Vida. Ele é a minha esperança. Ele é o meu amanhã. É nele que preciso continuar enraizada para não ser engolida pelas atrocidades humanas.

Seguimos aqui firmes pela graça dEle, até que Ele venha!